quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Lógica de Réveillon

Começarei 2014 publicando o texto que escrevi no finzinho de 2013 (: Espero que leitores ocasionais perdoem o singelo atraso, e espero também escrever mais - e melhor - nesse ano que nasce.


Fiquei um bom tempo pensando se deveria escrever esse texto, porque mensagens de fim de ano costumam cair em clichês e eu, particularmente, não sou grande apreciadora deles. Contudo, as palavras mais insistentes não costumam calar-se mediante lógicas e bons argumentos: elas simplesmente saltitam ao redor do meu cérebro e clamam por liberdade. Aqui está, assim, um tanto de pensamentos tortos que resolvi compartilhar.

Não gosto muito do Natal. A atmosfera consumista, a cidade lotada, o trânsito impaciente e principalmente a falsa prosperidade que todos se sentem obrigados a exibir drenam minha empolgação. Não chego a ser o Scrooge de Dickens (você o conhece, é o velhinho sovina e amargo que é visitado pelos três espíritos), mas a data não tem, para mim, a magia da virada do ano.

Não sou supersticiosa, mas acredito no poder da renovação. Acho que a proposta de deixar coisas ruins para trás e acreditar num futuro melhor é cativante. Nos segundos de contagem regressiva que antecedem a virada, o ar se enche de expectativa e é como se houvesse uma conexão entre as pessoas: é loucura pensar que seres humanos tão problemáticos, errôneos, imperfeitos e dissonantes consigam essa abstrata harmonia de pensamentos. É algo único.

Mesmo assim, às vezes sinto que basta acabar a queima de fogos e, voilá, todos os sonhos afagados antes da meia-noite se esvaem, como se a magia realmente tivesse se esgotado e a realidade cobrasse os pés no chão e a monotonia rotineira. Só que não gosto de desejos vazios, não gosto de crenças despedaçadas. Sendo assim, fujo dos simples votos de saúde, paz e amor.

Mais que saúde, eu desejo a você toda a paciência necessária para frequentar os médicos necessários e, indo além, seguir suas recomendações da melhor forma possível.

Mais que paz, desejo a você a sabedoria necessária para resolver seus problemas da forma mais simples possível, e para descobrir o momento certo para ouvir e o momento certo para falar. O controle mental para engolir sapos e, mesmo assim, não se intoxicar com veneno alheio.

Mais que amor, desejo a você que consiga demonstrar seus sentimentos de forma serena e que se deixe ser amado sem os tantos obstáculos que, às vezes, criamos para nos defender.

E principalmente: mais que renovação, desejo a você a força necessária para largar os velhos hábitos prejudiciais, e para transformar os devaneios mais improváveis em projetos plausíveis. As correntes que nos amarram, geralmente, são mais vulneráveis do que pensamos. É difícil admitir erros e defeitos, é quase impossível modificar-se, mas a simples percepção de nossas fragilidades às vezes basta para que consigamos evoluir.

Se há alguém que pode melhorar sua vida, nunca deixe de acreditar que essa pessoa é você. Às vezes somos tentados a terceirizar a culpa quando a simples e dolorosa verdade é que os operadores de qualquer mudança somos nós mesmos.


E um feliz 2014 a todos!

sábado, 28 de dezembro de 2013

Os Dois Lados

Conto escrito para um concurso no qual não fui vencedora. Não ficou exatamente do jeito que eu imaginava porque havia o velho e maligno limite de caracteres, mas publico-o mesmo assim. Boa leitura! (:



Apenas a cabeça dela estava presa.
Era estranho sentir o resto de seu corpo livre: os joelhos tocando um solo áspero e frio, o tronco paralelo ao chão desconhecido, como um animal de quatro patas. Seu crânio estava isolado por uma estrutura metálica, um enorme capacete retangular firmemente apoiado em algum lugar. Quando ela abriu os olhos, pensou ter ficado cega, até perceber a bizarra dualidade de seu semi-confinamento. Lembrou-se da vez em que ficara presa no guarda-roupa de sua mãe, e do medo pueril de ser esquecida pelo resto do mundo, nunca ser encontrada. Ao menos, daquela vez, sabia onde estava.
A claustrofobia enchia o pouco ar quente disponível, e o cabelo de Luma grudava em sua testa sem que suas mãos pudessem socorrê-la. Passou a esmurrar aquela perturbadora barreira física, mas o barulho ecoava muito próximo aos seus ouvidos, alto, fazendo-a tremer. Tentou forçar-se para fora, e uma dor excruciante percorreu sua espinha. Sentia como se um rato tivesse decidido passear por sua coluna, roendo alegremente seus nervos e cartilagens, cada pequeno passo uma explosão em sua corrente sanguínea. Parou, ofegando e imaginando que logo o único resultado plausível seria seu pescoço quebrado. A imagem preencheu seu cérebro: a cabeça pendendo do corpo inerte, seus olhos esbugalhados e parados, um sorriso de desespero congelado em seu rosto roxo... A impotência arrancava seu fôlego a grandes golpes. Sempre diziam que ela era muito racional, e acreditando nisso, era horrível não ter o controle da situação. Não havia raciocínio ou lógica que pudessem ajudá-la.
E então veio a terra. Uma fenda fora aberta de repente acima de sua nuca, e a repentina frieza metamorfoseou-se em puro pânico. As partículas infiltravam-se entre suas mechas, tocando sua pele, pesando, empurrando-a para baixo. Algo se mexia em seu queixo, talvez minhocas geladas, talvez vermes apreciadores de carne humana; independente disso, nenhum gesto brusco que ela fizesse surtia efeito.
Impulsionou-se para cima, fechando como conseguiu a abertura pela qual a terra caía. A pressão, contudo, ia crescendo gradativamente, e seus músculos frágeis não suportariam por muito tempo. Tremendo, sentindo a coisa no seu queixo rastejar em direção a sua boca e esperando o momento em que tudo desabaria, ela fechou os olhos, trocando a escuridão forçada por uma escuridão mais contemplativa.
Não estou sozinha. A ideia era chocante, mas verdadeira; o ar do lado de fora parecia sussurrar a presença de um espectador daquele macabro espetáculo. Luma poderia ter se divertido com a ideia de parecer um avestruz tentando se esconder, mas sentia-se muito mais como um inseto preso numa teia, e só Deus sabia o quanto ela odiava aranhas. Conheça o inimigo. Era estranho, mas ela não pensava em pedir socorro para sua suposta companhia. Havia uma certeza visceral de que ali estava o perigo, e não a salvação. Concentrou-se, então, em sua silhueta imaginária, como se sem a visão tivesse alguma chance de reconhecê-lo. Reconhecê-lo?
BAM. Soou assim o preciso chute que ela levou no estômago. Ela poderia ter vomitado, não fosse a força de toda a terra que desmoronou sobre sua cabeça, batendo-a com força contra a maldita estrutura. As mãos de Luma lutavam para proteger seu rosto, mas a barreira física era implacável. 
Ela passou a movimentar o rosto de forma que houvesse um espaço de sobrevivência, e o contraste entre suas pernas histéricas imersas em ar e seu nariz que clamava por uma chance de continuar respirando era sádico. A terra logo alcançou seus olhos, e era nítida a sensação do pó grudando em seus cílios. Fechá-los com força causava uma dor latejante. Em meio ao caos, ela inspirou com excessiva expectativa, e a terra veio, implacável: não havia nada mais a ser inspirado. Nada além de minhocas e vermes. Uma decisão precisava ser tomada.
Escarrou e cuspiu qualquer terra que a tivesse invadido, e parou de se mexer, todo seu corpo latejando. Prendeu a respiração.
Mesmo sabendo como era estúpida sua última esperança, Luma agarrava-se a ideia de que seu coração poderia parar de bater logo, quem sabe antes de não haver outra opção. O colapso era inevitável, e ela ficou ali, economizando energia, sentindo a terra contornar suas feições e aguardar pacientemente para adentrar seus olhos, pressionando seus lábios num beijo violento e cruel, fundindo a aspereza e a maciez numa piada de mau gosto. Cada átomo que despencava naquele espaço diminuto ia comprimindo, compactando, transmutando seu crânio num bloco de lixo a ser reorganizado. 
Seu coração batia com força, o vazio oprimindo seu metabolismo. Logo ela, que sempre usava as escadas para evitar o elevador, estava sendo parcialmente enterrada por um... Psicopata? A identidade de seu carrasco era algo que a perturbava, e não havia como pensar mais nisso. Havia o peso, a pressão e o tempo massacrante: era hora de morrer. 
Ela cedeu, puxando o ar inexistente, e logo a terra pôde finalmente encontrar seu lar. Sentiu-a abrindo sua boca ao máximo e descendo por ela, arranhando, preenchendo-a. Sua barriga se contraía violentamente enquanto ela sufocava, querendo vomitar, sentindo que algo vivo e viscoso se mexia a caminho do seu estômago. Engasgava, as lágrimas de desespero misturando-se à vontade de enfiar a mão garganta abaixo e arrancar aquilo de dentro dela, seu nariz teimosamente aspirando qualquer coisa na débil tentativa de respirar. Não parava de engolir a terra, afogando-se sem chance de despedida, sua garganta um cano prestes a transbordar. Poderia ter pensado em alguma despedida, mas estava um pouco ocupada com a tortura a que era submetida. 
Do lado de fora, alguém sorria. 



Quando Lola chegou em casa, deveria ter prestado mais atenção, mas estava muito agitada.
Feliz. Pensou em alguma outra palavra, lembrando a si mesma que a felicidade era uma ilusão; sendo essa a única que ocorreu, ela deixou por isso mesmo. Seu plano finalmente havia sido concretizado.
Sentiu um cheiro estranho no ar, e estacou, horrorizada. Não pode ser. Virou-se para correr, mas ele já estava na porta. 
- Estava te esperando.
Lá estava o monstro: gordo, suado, fedendo a álcool - aquele cheiro horrível impregnando o ar - e o molho de chaves dela nas mãos. Não podia ser pior.
- Edgar, você não deveria estar aqui. 
Ele riu, cambaleando na direção dela, o que fez com que Lola involuntariamente apertasse sua bolsa contra o peito. 
- Por que você insiste em me chamar assim? Eu sou seu tio, você sabe disso, me chama de titio.
Ela encarava as mãos dele, calculando quais seriam as chances de reaver seu prêmio, sua única chance de paz. 
- Que foi, querida? Perdeu alguma coisa? - e balançou as chaves no ar, um sorriso estúpido e sarcástico naquele rosto abobalhado. - Eu não quero que você vá embora antes que a gente tenha a chance de conversar, você adora me deixar falando sozinho.
Lola deu alguns passos para trás, na direção da cozinha. Quando ele veio firmemente em sua direção, ela apressou seus passos em direção a porta de entrada. Trancada.
- Vem aqui, vamos conversar, pra que a pressa? Aliás, você pegou uma coisa minha. Sumiram cinquenta reais da cômoda lá do meu quarto. 
Oitenta e cinco reais, seu imbecil. 
- Não sei do que você está falando. 
E é claro, agora a mãe dela estava no hospital, mais um turno. "Enfermeira nasceu pra sofrer", ela sempre dizia, com uma xícara de café fumegante entre os dedos magros, as olheiras profundas margeando os olhos escuros.
- Vem aqui, eu sei que você deve ter um bom motivo pra roubar do titio. 
Lola precisava de uma solução, e logo. Edgar - recusava-se a pensar naquele ser humano desprezível como parte da família - acabava de por todo o plano cuidadosamente arquitetado em risco. Haviam se mudado duas semanas atrás para a casa dele, mas não demorou para que ela aprendesse todas as regras daquele canalha bêbado. Acordara uma vez com o filho da puta tapando sua boca em plena madrugada e estendendo suas garras imundas na direção dela, e entendeu bem rápido o que ele pretendia. Ainda entorpecida pelo sono, mordeu-o e correu para o banheiro, tendo tempo de fazer  barulho e acordar a mãe, que estava em casa. 
Ele havia inventado uma desculpa qualquer, e ela calou a boca. Sabia que a mãe era uma fraca, ainda mais após a morte do marido - pai de Lola. Doía pensar nisso. Então havia feito isso mesmo, usado o dinheiro "dele" para trocar a fechadura do quarto que ela ocupava. Na hora pareceu uma boa ideia completar a vingança fazendo com que Edgar fosse o patrocinador involuntário de sua liberdade, mas agora ela via o quanto aquilo soava idiota. 
A embriaguez o tornava mais corajoso.
- Fiquei o dia inteiro na lanchonete, Edgar, estou morta. Preciso descansar. 
- Eu quero meu dinheiro de volta, sua vagabunda. 
Agora ele estava irritado. A vontade de Lola era correr, gritar e bater, mas apenas na proximidade havia uma chance de escape. Então ficou ali, um animal esperando o abate. 
Edgar parou na frente dela. Muito mais alto, analisava o corpo pequenino da garota, os quinze anos marcados em seus traços tênues. Uma expressão divertida o dominava. 
- Você até que é jeitosinha - e colocou os dedos engordurados no rosto dela. Distraia-o, socorro, distraia-o. - Se você for boazinha, tudo vai ficar bem.
Agora ou nunca. Ela sussurrou algo. 
- O quê? - ele aproximou o rosto para ouvir, e aí estava a oportunidade. 
Lola deu um tapa com a maior força possível no rosto dele, o molho de chaves tilintando ao cair. 
Rápida como um gato, ela colocou-o no bolso. Saiu correndo sem olhar pra trás, e como o apartamento era pequeno, logo avistou a porta do seu quarto aberta, convidando-a. Mas não ia ser fácil assim.
Dois metros antes da salvação, ela sentiu-o agarrar seu tornozelo. Sua bolsa foi arremessada, caindo em frente à cama, e Lola caiu com força.
- SUA CACHORRA - ele gritava, histérico. Virou-a, os joelhos sobre o quadril dela, cuspindo enquanto falava. - EU VOU TE ENSINAR UMA LIÇÃO. 
Tentou levantar sua blusa, fazendo-a gritar. O soco atingiu a bochecha dela, o gosto de sangue espalhando-se.
- Se você ficar quietinha vai ser melhor pra você. 
Como se recebendo uma ordem, Lola passou a se mexer violentamente. Edgar rasgou sua blusa, ela procurando desesperadamente uma forma de se defender. Era uma lutadora, sabia disso, mas a força daquele demônio era desproporcional. Se eu tivesse uma faca...
E então ela soube. Não tinha uma faca, mas havia outras armas à disposição.
Pegou o molho de chaves de seu bolso lentamente, escolhendo uma para usar como punhal na mão de Edgar que estava apoiada no chão. A pele flácida foi atravessada e ele se curvou para trás, urrando.
Era sua única chance. Ainda entontecida, saiu debaixo dele, levantou-se e correu com sua única esperança em mãos, ouvindo-o levantando com estrondo. As pernas dele eram grandes, e ele estava com raiva.
A blusa rasgada ficou ali, no chão do corredor, apreciando o espetáculo.



Um enorme barulho e o chão. Luma não sentiu a queda ou o alívio da liberdade; teve apenas o impulso de rolar e expelir a terra. Cuspiu e vomitou, sentindo como se seus órgãos fossem descolar de seu corpo, o sangue misturado aos delicados vermes brancos que ainda se mexiam. Jazem aqui dois pulmões, um estômago, um coração, uma alma...  
Minutos eternos se passaram até que ela pudesse acreditar que estava viva. Ainda sentia a terra dentro dela, mas o ar farto a distraía.
Quase sorria quando esfregou os olhos. Qualquer chance de sorriso morreu, contudo, quando ela encarou a máscara.
A trinta centímetros de seu rosto estava sendo observada por um rosto de plástico, cobrindo a feição de seu quase-assassino. Ela sempre fora do tipo idealista, declaradamente contra qualquer ideia de “maldade humana”. Até os psicopatas eram perdoáveis sob seus olhos gentis – mereciam tratamento adequado, e entendimento das pessoas “normais”.
Naquele momento, entretanto, queria espancá-lo. Apenas balbuciou:
- Por quê? Por que eu?
Seu interlocutor não se mexia, estático, e Luma sentiu um calafrio terrível quando percebeu o que o estranho queria. Tire a máscara. Tire a máscara.
Ela sabia que não gostaria do que encontraria, mas sentia-se hipnotizada: precisava acabar logo com aquilo. O medo inconfessável de já conhecê-lo ou - pior ainda, compreendê-lo - era cruel.
Estendeu as mãos e o revelou, engasgada com um grito de horror e surpresa.
Fitou seu próprio rosto. Pálido, bruto e satisfeito, um espelho enlouquecido, refletindo o lado de si mesma que tentava a todo custo esconder. Todo coração tem dois lados, um claro e um escuro, cantarolou a criatura.
Luma acordou em seu quarto com o corpo intacto e a alma aterrorizada pela horrível ideia de alguém capaz de soterrar-se. Pior que ser monstro, pior que ser vítima, é dividir-se nos dois papéis e continuar vivendo. Árdua tarefa, essa, de ser humana.
Enfrentara duas noites de insônia antes de perder a luta. Esperara que a exaustão pudesse bloquear a atividade de sua mente perturbada – tudo em vão: sentia como se houvessem restado larvas vivas em seu estômago.
Luma admitiu que não havia saída enquanto se levantava, observando através de um cansaço mordaz que ainda era madrugada. Por mais que tentasse fugir, eles estariam dentro dela, esperando para aterrorizá-la, persegui-la e fazê-la em pedaços. Não há salvação para os fantasmas que habitam as frestas da alma; o alívio, sempre tão difícil, só vem com o despertar.



Lola abraçava o próprio corpo convulso, tentando acalmar-se. Num lance de sorte, conseguira entrar em seu quarto e fechar a porta. Ainda olhava fascinada para a chave que usara como arma, a mesma que, já entre seus dedos, trancara a porta. Parecia ainda mais bonita, com seus novos detalhes rubros.
Gargalhou histericamente. Sorte. Se aquilo era sorte, que ela que não se deparasse com o azar.
Assustou-se quando o monstro resolveu esmurrar a porta, e de repente decidiu que uma barricada seria perfeitamente adorável: empurrou todos os móveis que conseguiu para baixo da maçaneta.
Sempre adorara dormir. Mais que a oportunidade de repouso, a de fuga. Furtar horas inteiras, tardes e noites atravessadas num piscar de olhos. Sempre imaginava secretamente que este fosse o caminho mais sagrado para a morte, o de morrer gradativamente ao fechar os olhos dia após dia. Fugir da verdadeira escuridão, fortalecendo-se para suportar a dor rotineira.
Ouviu Edgar blasfemar atrocidades do outro lado da casa, afastando-se, por fim. Aquilo soou como música, prévia do que ela abandonava para cair na inconsciência.
Lola foi dormir seu sono tranquila, porque sabia que estar dentro de si traz segurança. Não havia outro conforto em sua rotina de esconderijos de cartas, aniquilados após um único sopro...
Ela entregou-se ao doce sono sem medo. Sabia que os verdadeiros monstros, fatais, cruéis ou omissos estavam todos ali: do lado de fora. Não existe escapatória para os demônios que brincam de se esconder em esquinas mal iluminadas. 
Porque quando os piores pesadelos passam a deixar marcas verdadeiras na pele, a solução está em fechar os olhos. Quando o terror atravessa a realidade, não há mais nada a ser feito. Sonhos são descartados: não têm o mesmo valor. O alívio é raro, difícil.
Já ao desespero, só resta aguardar sua entrada triunfal: o despertar.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Façamos uma pausa.

Em verdade, faço uma pausa eu, enquanto na escola, sob a iluminação opressiva da luz branca e com o relógio a tiquetaquear numa lentidão sufocante.

O uso da 3ª pessoa do plural justifica-se pelo meu frágil otimismo, a vã esperança de ser entendida por um leitor ocasional.

E sua compreensão, caro transeunte, precisará aprovar - quem sabe apenas por cumplicidade - meu enfado, pesado fardo.

Suspiro ao ouvir palavras que já sei de cor, e a cadeira na qual repouso soa mais como prisão.

O tédio gera esta vontade louca de mover-me, de sentir algo além deste descontentamento, que se instala no estômago e parece rastejar até o cérebro, pedindo por distração, ação, coração - um verbo qualquer que se sobreponha ao vazio pulsante.

Talvez bastasse a saída. Sair de contexto, cenário e roteiro, pular da janela do terceiro andar e chegar ao chão ilesa (e de preferência tirar a poeira de meu vestido azul, à la Alice no País das Maravilhas, com toques de Tim Burton).

Imitar uma brisa de fim de tarde, inventar umas mentiras agradáveis, ouvir um segredo sussurrado. Esquentar pizza no microondas, podar flores, apostar e perder, vender meu casaco mais velho. Assassinar algum preceito indiscutível, discutir um preconceito indesejado, errar e começar de novo sem resmungar. Atravessar ruas sinuosas, tomar sorvete, soprar bolhas de sabão e assisti-las ascendendo ao céu, tendendo ao infinito (assim como a equação que o professor de matemática desvenda no quadro negro, sempre cínico, em sua segurança verde-escura).

Números. Sua frieza pontiaguda, a exatidão robótica de seus cálculos preocupa-me. Assim é a lógica que limita tantos olhos de vidro e convicções vazias, respostas prontas para questões profundas e humanas. A racionalidade é confundida com a arrogância, fundada em pontos de vista unilaterais e pobres em sua imobilidade. Mas humanos não são pétreos como os pilares da Ciência.

Creio no movimento, em meu subterfúgio de verdade de fato, de não apenas sobrevivência.

Quem me dera estar selando cartas, e enviando-as para amigos queridos e inimigos velados, e amantes imaginários... Vestir umas roupas mais confortáveis, fazer café, assar uma torta de cereja e conversar com um estranho. Subir uma escada em caracol com degraus de mogno, bater na porta e entrar na ponta dos pés, com um sorriso dual no rosto. "Por quê?", pergunto-me, deliciada. O que haveria em minhas mãos, uma chantagem diabólica, uma rosa azul, uma faca de dois gumes?

Ah, se a didática permitisse que a Física também mostrasse sua ambiguidade quântica! Defenestremos estes vetores indecisos, estas fórmulas inúteis decoradas com frases estúpidas. Tenho a aplicação mecânica de algarismos, e ninguém comenta sobre um gato que está vivo e morto, ao mesmo tempo, numa caixa austríaca.

Surpreenda-me, dissertação científica! Conte-me sobre a doce inconstância de fenômenos que enganam em sua vulgaridade cotidiana.

Sou feita de palavras; meu futuro as abraça sem hesitação. Já cálculos avançados, estes aborrecem-me profundamente. Enxergo-os como meros obstáculos a serem ultrapassados em prol do vestibular (mais um monstro devorador de almas).

Nadar numa piscina gelada, e entre mergulhos encontrar alívio para a ansiedade. Quebrar algumas regras, jogar baralho, partir uns corações, cantar músicas em idiomas que não domino. Aprender a desenhar e moldar algumas ideias fixas em traços melhor delineados. Chorar por algum motivo cabível, e gargalhar sem razão alguma. Queimar fotos antigas, salvar uma criança caindo de um prédio em chamas, planejar uma revolução política, perder um prazo, dormir até tarde, sem culpa ou medo. Corar de vergonha, assoviar alguma marcha antiga, comer bolo de chocolate com cobertura de chocolate (e recheio de chocolate). Abrir gaiolas aleatórias, e neste gesto libertar-me de minhas limitações.

Ah, se o cinismo existe, então está concentrad(íssim)o nesta Biologia desprovida de vida, com nomes esquivos e desenhos que não enchem os olhos de luz. A Biologia técnica e fria, que observa-me em minha carteira e ri-se de mim, deliciada, esperando que minhas pernas feitas para andar fiquem abandonadas, que meus olhos inquietos parem de procurar algum motivo de glória, que minha voz feita para expressar-me (desafinadamente) cale-se perante afirmações e informações que fatigam-me, acentuando minha aflição em busca de algo que não está aqui, não sob essa luz branca e opressiva, ou este relógio que tiquetaqueia tão lentamente, apenas para pontuar sem melodia a tortura minha de cada dia.

Fingir que o mundo está ao alcance de meus dedos. Sonhar, e acreditar que a realidade pode ser mais doce. Ler um bom livro, construir castelos de areia, bailar no caos. Antes deste conhecimento autoritário empurrado garganta abaixo, eu prefiro a vida. Antes desta organização depressiva e opressiva, eu escolho as palavras.

Escrever. De todos os verbos, o meu favorito. Pedi distração, ação, coração, mas tenho lápis e papel. Pedi esperança, leveza e liberdade, mas tenho lápis e papel. Se sou forasteira agrilhoada ou alma vivaz encarcerada, tenho lápis e papel. Sendo lápis e papel, traduzo-me num momento de agitação, e com um sorriso nos lábios, eternizo-me, divertida.

Não serei capturada tão facilmente.


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Deixo este texto em homenagem a todos que procuram uma forma de expansão, uma válvula de escape contra as imposições cotidianas. E sim, escrevi o texto durante as aulas mais terríveis para minha pobre mente, e agora meus colegas que tanto perguntavam que raios eu estava rabiscando terão uma resposta. Espero que gostem dela, de coração. Ainda escreverei uma crítica mais clara quanto ao sistema educacional, mas deixemos esta para uma próxima.