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segunda-feira, 16 de maio de 2016

Aquário



Quando as fotos apareceram no grupo de What’s App da turma de faculdade, um sentimento agridoce apertou meu peito por debaixo de toda a agitação fútil que borbulhava daquelas pessoas sedentas por sangue, abutres cercando a carne podre da última fofoca.

Alec era um quebra-cabeça a ser remontado.

-

Tudo começou por culpa do meu terapeuta. Na verdade ele poderia se defender dizendo que tudo começou com meu trauma de lugares fechados ou muito cheios, lá na minha infância. Nunca acreditei em destino, então na verdade sou até inclinada a dizer que nada aconteceu, foi apenas um amontoado de fatos aleatórios que me levaram até aquele elevador.

Enfim: era uma sexta-feira logo após um feriado de quinta, então a capital parecia esvaziada de estudantes e trabalhadores que eram de outros cantos e iam visitar suas famílias. A faculdade carregava uma calma que não lhe pertencia, e eu esperava pelas filas menores para entregar papéis da minha reprova em Cálculo I. Já imaginava a cara desagradável da moça que ficava no balcão do sexto andar; talvez ela até exibisse um sorrisinho satisfeito ao ver que mais alguém estava infeliz no que deveria ser uma emenda de feriado. Eu numa cidade fantasma e ela num emprego que pagava mal, duas almas solitárias sendo atraídas pela fatal atração do fracasso.

Eram doze lances de escada. A conta capenga logo foi rechaçada por meu cérebro sarcástico, parabenizando-me por tão genial conclusão. Nem imagino por que você não passou nessa matéria!, cantarolava uma voz irritante de dentro da minha orelha. Ao lado dos degraus mal desenhados – prédios antigos muitíssimas vezes sofrem dessa maldição – estava o elevador.

Passei anos da minha vida sem subir num desses; meus pesadelos estavam lotados de caixas sem saída e mares de gente nos quais eu me perdia. Como meus pais sempre foram religiosos, passei por um sem-número de rodas de oração, exorcismos e conversas com pastores, mas nada resolveu. Assim que ganhei meu primeiro salário procurei tratamento psicológico, me estrangulei financeiramente para conseguir pagá-lo e valia cada centavo. Shoppings não pareciam o inferno na Terra, shows eram possíveis se eu ficasse perto da porta – ou num andar com mesas espaçadas – e até elevadores poderiam ser usados, sempre à força mas com uma pequena sensação de prazer (e alívio) assim que a porta se abria.

Com a faculdade vazia, o elevador me encarava gravemente, esperando uma decisão. Eu não estava tão cansada, e cada degrau me fornecia a liberdade que aquela armadilha tecnológica nunca seria capaz de me conceder. Contudo, as folhas em minhas mãos pesavam os quilos da derrota, e talvez ver-me fora daquela caixa metálica fosse o empurrãozinho necessário para que o dia não parecesse tão horrível.

Pisei lá dentro segurando um pouco a respiração, a luz branca oprimindo minha alma covarde. 

Eu estava quase mudando de ideia quando um braço surgiu entre as portas que me trancavam à parte da humanidade e Alec apareceu com um bom dia. Acenei afirmativamente engolindo minhas palavras trêmulas, sabendo que sair não era mais uma opção.

O monstro pareceu demorar mais que o normal em sua decolagem, mas o tempo sempre ficava distorcido em seu interior. Por isso, quando a lâmpada oscilou arrastando o sangue da minha cabeça, achei que era exagero meu, e ela logo estaria de volta. Mas aí senti a gravidade se estabilizar, sem que as portas se abrissem. Não havia número no visor, e o limbo me dava as boas-vindas.

-

Para ser justa, o limbo nos dava as boas-vindas. Meus neurônios corriam de um lado para o outro segurando plaquinhas, quebrando máquinas com pedras e gritando coisas sem sentido, paredes parecendo se inclinar sobre minha cabeça.

Quando Alec segurou meu braço, a taquicardia interrompeu as diversas cenas possíveis nas quais meu corpo se espatifava junto ao chão do elevador, caindo no fim de um poço vazio e infinito. Eu poderia ter ficado grata por isso, mas estava ocupada com o susto, tentando processá-lo enquanto meu cérebro continuava em pane.

- Amanda, você está transparente de tão branca.

Havia uma contradição naquela frase, e isso me tirou um pouco de dentro de mim. Comecei a relembrar paradoxos, um ser onipotente consegue criar uma pedra tão pesada que ele mesmo não possa carregar?, me distraindo do terror, mas logo minhas pernas me traíram e cambaleei, agora imaginando se algum deus entediado rasgaria o teto sobre minha cabeça com uma pedra, deixando-me à beira de um buraco mortal.

- Moça, você precisa respirar.

Parecia uma boa ideia. Olhei pra ele com medo de que meus olhos saltassem das órbitas e acertassem seu rosto.

- Vamos lá. Respira... Solta... Respira... Solta.

Comecei a acompanhar, mas era muito difícil. Eu poderia ter dito algo agradável, mas preferi soltar a clássica voz aguda dizendo “nós vamos morrer”.

Alec sorria tentando me tranquilizar, e explicando que era impossível que morrêssemos. Nada é impossível, rebati enquanto apanhava o fôlego, sempre mecanicamente, sempre pensando que da próxima vez não haveria ar e teríamos chegado ao fim.

- Amanda, senta aqui no chão comigo, que tal? Ficar de pé é um esforço desnecessário.

Joguei-me no chão com a delicadeza de um saco de batatas.

- Dá pra ver que você não gosta muito de elevadores, hein? Mas te garanto que a gente não morre. Posso te contar uma história?

Ele não esperou qualquer anuência para começar a falar.

-

Quem me dera fobias fossem administráveis. Continuo o relato tendo desejado tê-lo ouvido num boteco, e não num momento de caos mental. As palavras me abraçaram naquele momento, mas afirmo aqui meu desejo de não profanar os mortos. Alec me contou uma história com sua voz calma e seus gestos contidos, e a voz que a ecoa é desajeitada e, pior ainda, traída pela memória.

-

- Eu sou do interior, e minha cidade natal é atravessada por um rio enorme. Meu pai trabalha em um banco faz anos, e o cargo dele fazia com que tivéssemos que nos mudar com certa freqüência. Ele e a minha mãe nunca combinaram de verdade, e por isso eles brigavam demais. Antes que eu pudesse manifestar qualquer vontade, o aquário apareceu. Ao meu redor, aqui e agora, dentro desse elevador parado, você pensa que está ao meu lado, mas de fato há vidro invisível entre nós.

Sou filho único agora, mas já tive um irmão. O aquário surgiu quando ele ainda não era nascido, e depois da morte dele ficou de vez. O acidente foi quando ele tinha seis anos, estávamos brincando na calçada e um carro bêbado passou por cima da gente. Eu sobrevivi. Talvez alguns graus, um novo ângulo para o carro e o pequeno ainda estaria entre nós. A cena acontece de um jeito e permanece pra sempre, sem direito a ensaio ou corte.

Antes de seu nascimento e de sua morte, enfim, meus pais estavam discutindo alguma coisa. Meu pai sempre teve o hábito de empurrar minha mãe até o limite, e ela, ajudada pelos remédios, perdia o controle. Nunca gostei de ouvir as discussões dramáticas, com direito a pratos voadores e copos quebrados. Num dia em que me escondi no meu quarto torcendo para que eles falassem mais baixo e eu pudesse ver desenho animado em paz, surgiu esse aquário ao meu redor. A voz dos dois estava abafada, mas em compensação a televisão nunca pareceu mais viva pra mim. A água era translúcida, o vidro etéreo e tudo que eu precisava fazer era me ajeitar por lá. A partir de então nunca mais consegui prestar atenção nas brigas intermináveis; bastava fechar os olhos, me concentrar um pouco e lá estava meu aquário particular.

Quando um dos dois vinha encher minha paciência com discursos sobre quem estava absolutamente certo e quem estava redondamente enganado, eu podia ficar lá por horas me distraindo com as bolhas e o movimento calmo da água. Meus pais nunca precisaram da opinião de ninguém; um ouvido bastava para que eles despejassem tudo que os engasgava. Gosto de pensar que os ajudei assim, porque enquanto eles se esvaziavam, meu aquário enchia. Para mim, mais água sempre pareceu bom. Talvez ele tenha resolvido se materializar ao meu redor por causa do rio, era para lá que eu fugia quando ainda me importava, e antes de nos mudarmos novamente.

Depois da morte de Tomas, duas coisas aconteceram. A primeira foi exatamente nada, o que me deixou muito perdido. Sempre fui quieto, mas Tomas era uma criança iluminada, todo bochechas gordas e uma risada deliciosa. Meus pais saíam muito de casa pelo ambiente que eles próprios construíam, e Tomas ficava comigo. Tínhamos nossa rotina juntos, esconderijos, palavras secretas. Eu, tão mais velho que ele, admirava sua sabedoria, sua alegria permanente. Quando ele se foi, eu de algum modo sentia que o mundo tinha que parar. Mas os noticiários continuaram indiferentes, o dólar caiu e aumentou e meus pais não conseguiram deixar de implicar um com o outro nem no momento do enterro. Resmungavam algo sobre o caixão enquanto a terra o cobria. Estávamos no interior, não havia rio e a monotonia do mundo me chocava profundamente. Onde estavam os trovões, mares se abrindo, raios cobrindo tudo? Eu precisava de um pandemônio para confirmar que aquela partida significava alguma coisa de importante e crucial, qualquer coisa. Qualquer coisa teria servido, mas foi o nada que prevaleceu.

Na escola as outras crianças tagarelavam sobre assuntos que não faziam sentido pra mim, então eu não tinha vontade de conversar com elas. As notas ruins faziam com que boa parte das professoras me desprezassem, e os adultos legais ficavam para trás a cada nova cidade. O aquário era minha salvação até sua mudança, a segunda coisa de que eu estava falando.

Foi num dia em que meus pais mais uma vez gritavam coisas sem sentido, e eu os ignorava enquanto jogava vídeo game. Só que daquela vez, quando ouvi minha mãe jogando coisas no chão, um calafrio desceu pelas minhas costas e me lembrei da caneca do Tomas. Larguei tudo e, quando cheguei na sala, o dinossauro desenhado na porcelana se espalhava pelo cômodo, partido em mil pedaços em meio a flores e padrões quaisquer, também partidos. Olhei para os dois, perplexo, com um ódio tão grande que, num raro momento, a discussão parou. Eu tremia de raiva, e se houvesse uma arma por perto eu poderia ter dado dois tiros sem maiores remorsos.

Eu gritei que os odiava. Meu pai estufou o peito e minha mãe se jogou no piso de madeira, puxando os próprios fios de cabelo e batendo os pés no chão, fazendo um som infernal. Falei que não era sobre eles, que eles deviam respeitar ao menos um filho perdido, e eles me mandaram voltar para o meu quarto porque eu não entendia, porque eles estavam resolvendo coisas de adultos e eu estava sendo egoísta.

No dia seguinte eu queria conversar com alguém para por os pensamentos em ordem, e pensei na Rosa. Você me lembra um pouco ela, Amanda, a Rosa tinha um cabelo parecido com o seu. Ela era bem quieta, então preferi confiar a ela meu desabafo. Ela me ouviu por alguns minutos, e disse algo sobre eu me afastar dos meus pais e não ligar para eles. Achei o comentário mal formulado, quase jogado como uma esmola mal humorada, mas era o que eu tinha e o que geralmente se ganha ao contar problemas a terceiros. Quando ela abriu a boca para lamentar sobre um vestido perdido, me calei e observei a água do aquário. Ela parecia diferente. Mais turva. Eu olhava para Rosa e tinha dificuldade de enxergá-la, ou de ouvi-la, mas assumia estar acenando a cabeça nas horas certas já que ela não se interrompeu por um único segundo.

Naquela noite, antes de dormir, o aquário escureceu. A água ficou muito pesada, e eu sentia algo entre o sono e o alerta, um meio de caminho que me deixava agitado por dentro e lento por fora. Eu olhava para os meus braços e eles pareciam ter o peso errado, minha cabeça era tragada pelo travesseiro. Pensei em pedir ajuda, mas lembrei que ela nunca viria: meus pais não conseguiriam enxergar nada além deles mesmos.

Foi nesse ponto que eu cometi meu único erro: não esconder o que eu estava sentindo. O aquário, que antes parecia tão amigável, agora me sufocava um pouco. Já fazia tempo que ele não ia embora, mas normalmente eu podia desativá-lo. Depois da morte de Tomas eu não havia tentado novamente; agora, mesmo tentando, não conseguia.

Talvez tenham sido meus movimentos lentos, ou o apetite descontrolado que me engordou muitos quilos; até mesmo o hábito adquirido de dormir imediatamente após qualquer bronca institucional, fosse da faxineira ou do diretor. O fato é que um dia, depois da aula, uma professora me parou e disse que precisava conversar comigo. Disse que percebia que eu estava muito triste e pediu que eu dissesse a ela se havia algo de errado. Decidi contar tudo: sobre Tomas, sobre meus pais e sobre o aquário, esse último causando uma concordância delicadamente cética. Que fique claro, o aquário nunca foi metáfora, ele sempre existiu e sempre vai existir. Após me ouvir compenetradamente, ela decidiu marcar uma reunião com meus pais.

Os dois compareceram para, minutos depois, saírem da sala ofendidos: entre a inconformidade e o sarcasmo, me apanharam no corredor. Pontuavam que ela não sabia nada sobre nós, e enquanto passavam a mão pelo meu cabelo, na porta de saída, diziam que eu era um menino que tinha tudo. Eles nunca haviam deixado faltar nada, insistiam muito nesse ponto: eu tinha os melhores materiais escolares, as melhores roupas e os melhores brinquedos. O diretor com certeza iria ouvir sobre conclusões precipitadas e acusações infundadas, eles repetiam. A Srta. Ângela engolia em seco, olhava para mim com certa aflição. Depois daquele dia toda sexta-feira, quando todas as crianças já haviam saído, ela me segurava pelo ombro e me entregava pães de mel caseiros. Eu agradecia, e nossa conversa se resumia a meia dúzia de frases trocadas nesse momento. Ela às vezes perguntava do aquário, e eu mentia dizendo que ele havia sumido. Foram mais três meses na escola, porque no final do ano eu já estava morando em outro estado.

Meus pais torraram minha paciência depois desse episódio, afirmando quando tinham oportunidade que eu era ingrato. Diziam isso com certa mágoa na voz, e eu precisava lidar com o fato de que eles eram humanos e me amavam do jeito deles. Esse é um fato que sempre serviu mais para aumentar minha culpa do que para perdoá-los, por compreendê-los e continuar me equilibrando entre a raiva e a indiferença.

No próximo lugar, em mais uma situação-limite acabei por desabafar com um garoto parecido comigo, mais calado entre tantas palavras inúteis. Comentei do aquário e afinal descobri que o Igor não era tão quieto assim - até o fim do Ensino Médio fiquei sendo chamado de Peixe.

Mesmo as pessoas bem-intencionadas que me ouviam acabavam mais me descobrindo como um depósito de aflições do que como alguém a ser ajudado. O hábito do silêncio ajuda muito na observação, e às vezes minhas palavras eram úteis. No início eu largava os problemas da minha vida aos soluços – meus pais como o eixo principal – mas os ouvintes sempre eram certeiros em suas respostas simplórias. Enquanto eu escutava pacientemente e relativizava a dor alheia em pedaços, meu relato era um bloco único a ser magicamente resolvido com meia dúzia de palavras e uma rápida retomada aos problemas alheios. Meus relacionamentos unilaterais eram uma forma alternativa de superar a solidão e de me sentir um pouco mais importante. Era fácil - bastava sorrir nas horas certas, ouvir atentamente e lidar com meus problemas sozinho. 

O aquário foi ficando mais complexo com o passar do tempo. Muitas vezes após minhas tarefas, caso me deitasse na cama, o aquário ficava escuro, e eu chorava por horas seguidas, tocando as solas dos pés e dobrando meu corpo para sentir que eu ainda não havia me dissolvido. O tempo escorria ao meu redor e grudava em minha pele; eu não tinha energia para afastá-lo. Uma técnica muito utilizada era me entupir de todas as tarefas possíveis para manter meu corpo funcionando quase automaticamente. Quando eu parava, sabia que o aquário me envolveria como um útero confortável e paralisante. Comecei a trabalhar muito cedo e sempre fui responsável com as obrigações implicadas; guardei o dinheiro rigorosamente com o objetivo de fugir de casa da forma mais pacífica possível – com uma boa desculpa.

Apesar de não ter tanto jeito com as pessoas, eu tinha esperança de, ao largar meus pais, conseguir lidar com humanos de forma mais otimista. Tirar o peso das minhas costas, e quem sabe, me livrar do aquário, já que eu não tinha controle algum sobre ele. Às vezes, entre as pausas cotidianas, eu precisava me refugiar em algum banheiro para reaprender a respirar dentro d’água e seguir com o dia.

A distribuição de sorrisos automáticos nunca acabava, e na verdade era raro o dia em que alguém me perguntava se eu me sentia bem. Mesmo detalhando toda a dor e letargia e escolhendo a dedo um confidente, a decepção era exata. Entregar meu coração em uma bandeja de prata era um exercício que havia se mostrado insustentável e inútil, então optei pelo cotidiano farsesco. Às vezes eu imaginava que, se levasse um tiro no ombro, conseguiria manter um rosto impassível puramente pelo hábito.

As brigas dos meus pais foram ficando menos dramáticas após duas décadas e um tanto, então quando consegui dinheiro para me mudar para a capital, ambos me deixaram ir com o sentimento de que tinham feito tudo certo. E eles de fato fizeram, dentro de suas limitações. Ambos eram cegos e egoístas, e não por isso menos infelizes. Arrastei meu aquário rumo à liberdade.

E foi sozinho que me dei conta: o aquário havia se tornado grande demais. Chegar em casa e deparar-me com a ausência da violência fazia com que a água se esparramasse e inundasse até os eletrodomésticos. Eu nadei pelas ruas, pelo trabalho e pela faculdade, olhando ao meu redor e observando meu próprio corpo como um espectador. Meus movimentos muitas vezes não pareciam sincronizados, como se o tempo e o espaço rodopiassem do aquário e fossem desajeitadamente atirados para fora. O problema de abandonar a zona de guerra é que o estado de alerta se torna parte de você. O ar cheio de tensão, o cansaço pelos pensamentos obsessivos, os sobressaltos com qualquer sombra brusca. O vidro havia engrossado de forma irreversível para que eu alcançasse a compaixão humana, e a água me afogava por vezes.

Ando pensando muito nisso. É verdade - me tornei um peixe, Marcela. E meu destino, único e certo, é terminar em águas. Não num elevador, num poço seco e urbano. Não mesmo.

-

Assim que as últimas palavras dele foram derramadas no chão, a luz voltou e o elevador tomou impulso. Comecei a chorar aliviada, e quando as portas se abriram saí bruscamente. Quando minha alma começou a posicionar-se dentro do meu corpo, olhei para trás e deparei-me com Alec, mais uma vez abandonado por um ouvinte. Tentei pegar o ar para dizer-lhe algo, mas seu aceno cortou qualquer outra chance de comunicação, as portas do elevador o fechando novamente em si mesmo.

-
A dúvida rondava minha cabeça, e eu realmente gostaria de prolongar aquela conversa. Queria compreender de onde havia vindo tanta profundidade dividida com uma completa estranha, mas tinha medo da resposta.

Segunda, terça, quarta, quinta, sexta, segunda. Não o encontrei. Deram falta dele primeiro no trabalho, homem foragido de reuniões importantes. Nas chamadas da faculdade, principalmente nas matérias em que o professor era rígido quanto às faltas, finalmente algumas vozes começaram a perceber que havia algo de errado. Foi o locador de seu apartamento que abriu as portas de um lugar escuro e com água até o tornozelo devido a um vazamento na cozinha.

Foi olhando para meus colegas de sala após o sumiço de Alec que comecei a entendê-lo melhor. Todos comentavam sobre sua simpatia e seus comentários afiados, mas nenhum de nós tinha sequer ideia de sua vida particular. Endereço, possível namorada, mesmo o nome da companhia que ele integrava. Alec participava de tudo como uma espécie de mobília que sabemos que existe, mas sobre a qual nunca nos detemos. Uma espécie de peça-camaleão que se camufla e acaba por lá ficando, beleza perdida pelo véu do cotidiano.

Eu havia comentado com algumas amigas que havia ficado presa no elevador com ele, sem citar maiores detalhes daquela história tão particular e triste. Assim, quando a polícia me convidou a prestar depoimento, aceitei, pensando em quais seriam as palavras certas para não considerarem Alec louco e interromperem as buscas.

Acertei sem querer. Disse a eles que, na breve conversa que tivemos, Alec deu mostras de nostalgia (principalmente em relação a ele mesmo), e logo o delegado me interrompeu perguntando se ele havia falado de casa. Perguntei se já haviam consultado os pais dele, e fui informada de que as investigações estavam sendo conduzidas com sua ajuda.

Minha pausa foi breve. A charada estava ali, sorrindo um sorriso cruel, e eu não queria ser a pessoa a carregar o fardo de ter vislumbrado o futuro e não ter feito nada. O fardo, entretanto, nunca se importou com a minha vontade.

- Sabe, pensando bem, ele disse que estava com saudades.

Dele mesmo. De habitar fora do aquário e de suas ondas furiosas e paralisantes. De ar livre, de vida.

- Mas não bem de casa, sabe. Ele falou bastante da cidade natal. Vocês andaram pelo local?

Não, das tantas residências ninguém se deteve na primeira. Um corpo não identificado havia sido entregue na cidade vizinha e depositado na margem esquerda do rio. Oito dias após o episódio do elevador, Alec finalmente foi reconhecido. Seus pais me agradeceram por ter permitido um enterro ao seu filho, e fiquei imaginando se haveria alguma outra discussão sem sentido no momento em que o caixão fosse coberto pelo coveiro. Algo me dizia que sim.

Mas a tragédia não terminou aí, porque um grupo de rapazes viu Alec se equilibrando em cima de um declive muito alto próximo ao rio e imaginaram o que viria a seguir. Não se preocuparam em impedi-lo, mas tiraram várias fotos do resultado final – um corpo semi-estraçalhado a metros de distância de estranhos desumanos.

Eu estava de pijamas e preparando meu jantar quando tudo começou. Foi o conteúdo das mensagens das pessoas da minha sala de aula que concederam o cenário principal, já que meu celular só carregaria as fotos se eu as selecionasse uma a uma. Eu imaginava Alec e sua preparação, observando as pedras abaixo, pescoço inclinado perigosamente para contemplar as águas. O salto, um corpo projetando-se no ar: último vislumbre de sujeito antes de tornar-se mera carcaça. Meus colegas estavam interessados nos órgãos, exclamações e emoticons fazendo a performance da (suposta) dor humana. e com o estômago embrulhado escolhi uma das imagens para ser entregue em meu celular, me sentindo tão cruel quanto qualquer um deles. Entre curiosos e feridos, parecíamos todos iguais.

Sentada no sofá, apetite assassinado, eu buscava alguma migalha de conforto, qualquer pista de que nem tudo havia dado errado. Meu celular chacoalhava com o debate inflamado sobre a moralidade daquilo, mas eu não queria pensar mais nisso. Com a ponta dos dedos alarguei a foto e me aproximei de seu rosto uma última vez.

Metade de seu rosto estava esmagado contra o chão. O que sobrou de Alec, mesmo comprimido, mesmo desabado pela gravidade, parecia de alguma forma mais leve.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Estática



Ela descia as escadas quando a viu, sentada em um dos degraus, imóvel.

Conhecia a outra e nela se reconheceu: talvez fossem os ombros largos, o hábito de sentar-se no chão sem pudores, ou a grandeza física encolhida e estática. A outra olhava para algum lugar que não estava ali, na distância física. Era um ponto entre andares não tão frequentados, e por isso duas mulheres grandes sentadas não seriam obstáculo de mesma proporção. Ela hesitou, pensando que não era problema seu (e não era), que talvez fosse atrapalhar mais que ajudar (talvez fosse) e que estava atrasada (mentira desencorajadora). E foi a desculpa do horário que a deteve.

Naquela noite, a ansiedade havia repousado em seu estômago com a leveza de um elefante bêbado, e ela se pegara pensando que talvez, se não tivesse a necessidade de dormir, suas tarefas seriam cumpridas de forma mais satisfatória, num desejo secreto de ter um pouco mais de sua humanidade arrebatada por um sistema frio e robótico. Mas ela era humana, apesar de tudo. Se nem sempre a empatia dá frutos, ela deveria ao menos tentar. Então sentou-se, ela e a outra, agora lado a lado.

A outra percebeu que estava acompanhada, mas mexeu a cabeça devagar, dirigiu um pequeno olhar a ela e voltou ao ponto metafísico, toda pálida e olhos mortos.

Tossidela.

- Tudo bem com você?

Palavras vãs de encontros inesperados, é sabido, mas o tom empregado sugeria algo mais. O desinteresse usual havia sido substituído por uma urgência delicada, dessas que permite a resposta e a fuga.

A outra nada disse, olhos se liquefazendo. Os segundos seguiram seu desfile inexorável até que a outra, muito devagar, dobrou o braço direito para a frente. Esticava e dobrava os dedos lentamente, ela observando que o ar ao redor da outra parecia mais denso, água de um aquário invisível impregnando seu microuniverso de lentidão. Era uma valsa estranha, essa de unhas, cotovelo e pulso, num pequeno espetáculo tenso e inútil - redescoberta de algo que não foi, e nunca seria...

- Dói.

Ela sobressaltou-se com o som mínguo e repentino, três letras agonizantes proferido pela outra, que agora abaixava a cabeça, tremendo microscopicamente.

Ela segurou o braço da outra com mínima força, quase prendendo a respiração para que não se afastasse. Mas a outra mal percebia, imersa em si.

- Onde dói?

A outra fitou-a num rompante, e esse seria o único contato visual que teriam naquela tarde.

- Viver. Dói.

A frase foi entrecortada pela respiração da outra, puxando o ar para chorar, o colo avermelhado e as lágrimas grossas sacudindo-a. Tudo num silêncio violento, o pranto mudo que rasga de dentro pra fora.

Ela assustada passou a mão pelos ombros da outra, sempre ela e sempre a outra, duas entidades separadas por uma distância tão invisível quanto arrasadora.

E então, nesse segundo antes de levantar-se desconcertada por tamanha dor inalcançável, ela percebeu algo espantoso. Tão espantoso que por aquele momento teria gasto todas as suas economias para guardá-lo consigo, num refúgio mais confiável que a memória. Mas não havia nada a ser feito porque as melhores fotos só acontecem havendo o fotógrafo sábio, o instante irrepetível e a câmera em mãos. Ela não tinha nada disso, e a outra destilava seu paradoxo por pouco tempo: mesmo estando na presença d’ela, a outra estava sozinha. Deixada para trás em si mesma, não havia nada a ser feito, e ela precisou abandoná-la mais uma vez, transbordada. Era humanidade demais.

domingo, 12 de outubro de 2014

O fantasma sorri



Ah, minha querida, eu gostaria de não ter chorado tanto.


Não sei se é este pensamento que me desperta, ou se é apenas o primeiro a emergir do sono frágil: hoje é dia das crianças.

A constatação me desconcerta, atravessando-me como um raio, saindo de meu estômago e indo até a ponta dos dedos dos pés. Não é o fato em si que espanta, mas sua natureza banal. É ela quem, do pé da cama, encara-me com solenidade. Minha idade agarra-se a essa percepção, e logo meu caos particular está emaranhado junto aos cobertores velhos.

O dia doze de outubro era um dos mais aguardados do ano. Lembro-me do pacto sagrado que eu e meu irmão fazíamos: o primeiro a despertar chamava o outro, e lá íamos nós dois pular na cama de nossos pais. Os livros e brinquedos, com suas cores brilhantes, eram contrastados pelas negociações envolvendo etiquetas de preços monocromáticos. Era o dia da música de papéis se rasgando, chocolates mordidos e pedidos realizados. Um dia aguardado com ansiedade.

Desço da cama inquieta. O silêncio da casa não será quebrado por pés descalços correndo ou pelo café da manhã excepcionalmente antecipado. Agora, enquanto abro a janela, o sol opaco é de uma data qualquer, esquecida, não mais carregando qualquer tipo de emoção aguda.

Em que momento o encanto escapara? Teria ele sido arrancado pelo tempo, teria sido expulso pelo trágico ímpeto de crescer? Quando aquela ansiedade se fora, sem dizer adeus?

A inércia quase me conduz até a água gelada da pia; o espelho na parede, antes mero acessório inofensivo, me detém.

Ele sorri para mim – não um traço simpático, mas quase um esgar violento. Ele ri de mim, destacando impiedosamente o par de olheiras e as perguntas tolas.

Confesso, derrotada, que a ansiedade existe, sim; continua lá, parte de minha alma, estampada em meus olhos. Ansiedade, entretanto, que não será alegremente desfeita dali a duas caixas de presente.

Não me reconheço.

Sou a mesma de ontem, e de anteontem, mas a conexão entre meu passado e meu reflexo é tênue.

Os dedos longos, os olhos curiosos e o formato do cabelo são os mesmos; o esmalte vermelho, o lápis de olho borrado e a tinta, não.

A sobreposição é visível. A garotinha que fui – fantasma esguio – esforça-se para se esconder, mas sinto que ela está ali, em algum lugar. Soa até arrogante esquecer o mérito (e a culpa) que a menina teve sobre a (suposta) mulher.

Tento ser menos estrangeira nessa melancolia cronológica, menos cruel comigo mesma. Afinal, ainda sou uma sonhadora, sobrevivente da realidade esmagadora. Se estou sendo dissolvida de dentro para fora, é porque antes meus sonhos me ajudavam a dormir, e agora são eles que me mantém acordada noite adentro - rabiscando papéis que talvez ninguém leia, contando estrelas que ouso fingir que enxergo, tentando alcançar o futuro indistinto.

Não sei se a criança que fui teria orgulho do que sou hoje; resta-me o risco de acreditar que, enquanto esse enigma tiver importância, estarei no caminho certo.

Afasto-me, um pouco mais leve. A esperança pífia e insistente de um gesto quebrado: o fantasma sorri.

sábado, 20 de setembro de 2014

Nota de uma [suposta] virose


Às vezes é difícil entender as engrenagens que movimentam os microcosmos de cada um.

De quem se espera compreensão e cumplicidade, vem os ataques e as acusações ("mesquinhez e egoísmo", "insensibilidade e arrogância").

Do que se espera o mínimo de colaboração - e por que não o próprio corpo? - vem a derrota após horas e horas de estudo, estresse, apetite perturbado, sono prejudicado.

Faz quatro dias que não lembro o sabor da saúde regular, que não sei o que é o conforto de não sentir a dor física impregnando todos os meus sentidos. Mas há meses suporto minha deterioração, exigindo sempre mais, deixando-me conduzir por discursos de invencibilidade.

"Perdeu 11 quilos? É fácil, você tem 18 anos. Estuda onze horas por dia? Devia estudar mais, não tem casa pra sustentar. Trabalha duas vezes por semana? Tão pouco, nem devia cansar. Problemas pessoais? Todo mundo tem. Dorme mal? Eu também, problema seu."

Mas pior que a traição dos que amamos é a traição do próprio corpo, capaz de engaiolar-nos perante qualquer passo em falso.

Nada como analgésicos que não funcionam para lembrar que nem tudo é decepção, coração partido, alma escorraçada.

Às vezes é dor literal e não-literária. Órgãos, sintomas, carne, pele e entranhas. Simples assim.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Reconstrução

Este texto foi escrito sob encomenda, "carta apocalíptica", e publicado dia 21 de dezembro de 2012. Ele foi trabalhoso e gosto muito dele, então não resisti. Espero que agrade c:


Querido Sr. Smith,

tudo está desabando, e o motivo disso é o nome errado. Imagine só: um punhado de letras bastou para um resultado desastroso assim.

Agora estou na lanchonete da esquina, tomando um café e vendo o mundo acabar. Para ser honesta, a chuva de meteoros é um espetáculo muito bonito de se ver, e eu gostaria de um pouco de glacê no meu pedaço de bolo.

Nem tudo acontece como se espera – essa é a lição do dia.

Sabe, Smith, nesses momentos em que perdi e estou perdida é que sinto mais falta de meu pai, e de seus cigarros com cheiro de hortelã. Ele sorriria e diria algo bobo, que me faria sorrir também...

Se você existisse, meu amigo, eu poderia ser mais educada, e perguntar sobre seu dia. Ou poderia colocar meus pensamentos numa ordem menos ilógica. Mas meus dedos anseiam por meus rabiscos terapêuticos, e esses prédios que desmoronam sem mais nem menos estão me desconcentrando, e ainda nem falei sobre o nome.

O nome.

Sim, lá estava eu quando convocaram uma reunião com todos os funcionários da minha área. Caminhei com o coração palpitante, cantarolando Elephant Gun, recortando um caminho entre as costumeiras pessoas com olhos de peixe e vício em ar condicionado. Eu sabia que, agora no fim do ano, essa reunião só podia significar uma coisa: o anúncio da promoção.

A promoção que rendeu inúmeras horas extra de trabalho, a promoção que me fez dormir mal por tantas noites, a promoção que me obrigou a fazer relatórios novos para pessoas que não suporto. Minha razão nesses dois últimos anos. Essa promoção.

O homem de terno e com óculos pequenos demais estampou seu sorriso mais amarelo no rosto, e começou um típico discurso de fim de ano. A mesma voz que ordenava demissões em massa contava a todos que grande família somos. Não que ele fosse bom ou mau, ele era apenas um homem de negócios, acima dessas classificações, entende?

As palavras vazias flutuaram com o vento abafado, e depois de um suspense sutil, ele anunciou o novo detentor do cargo.

O nome. Que, definitivamente, não era o meu.

Puxei o ar. Puxei, com força, com vontade, mas ele não veio.

Então o prédio começou a tremer, ou talvez fossem minhas pernas instáveis não colaborando. Segurando as lágrimas, corri para a escada, e como num filme de ação os degraus começaram a se desfazer, e as paredes sussurravam meus piores pensamentos. Ouvi gritos, mas meu pânico era tão palpável que eu não sabia mais se eles vinham de meus sonhos quebrados ou das pessoas que abandonei no quarto andar.

Corri para baixo, mergulhando em memórias doloridas e passos apressados. Passei pela porta, e mesmo assim continuei correndo até perder o fôlego. Quando minhas bochechas adquiriram o tom de tomates, virei para trás, e de repente era tudo pó. O prédio, as pessoas lá de dentro, e as expectativas. Nada mais existia, Smith, nada.

Sentei na calçada tentando me acalmar, mas um dragão passou sobre a minha cabeça, cuspindo fogos de artifício de todas as cores. Os meteoros passaram a cair, numa melodia de assobios estridentes, e as pessoas só sabiam imitar gralhas, remexendo os braços e, bem, gralhando (essa palavra existe, sabia?).

Tentei entender o caos, o que não é tarefa fácil.

E, então, tudo ficou claro.

Hoje é dia 21 de dezembro!

Tanto falaram para mim do fim dos tempos, e eu apenas ignorei, achando que seria mais uma bobagem. Foi, na verdade, um alívio me dar conta dos fatos.

Sem maior peso em minha consciência, saltitei até a lanchonete, e resolvi comer bolo e tomar café; não haveria nada mais adorável a se fazer num momento desses. Além de corresponder-me com você, obviamente.

Nada mais de escritórios grandes. Aquilo é uma selva, Smith, você precisava ver. Nada mais de masoquismo em busca de um salário melhor. Não, não, nada disso. Apenas o maior espetáculo da Terra.

As casas e prédios estão desmoronando, e desfazendo-se majestosamente, como se fabricassem uma cortina sobrenatural de cimento e tijolos. Árvores, sempre elegantes, estão largando suas raízes e caminhando tranquilamente por aí, desfilando suas folhas delicadas. As estrelas estão todas piscando bem rápido, como luzes de Natal.

Pode ser uma tragédia, mas soa como algo ousado e apoteótico.

Você sabe, meu caro, que sempre fui uma pessoa racional. Mas aqui, enquanto estou sentada acabando com a cobertura de chocolate, restam três opções.

A primeira, mais interessante, é a de que os maias estavam certos, e sou apenas mais uma maluca buscando conforto no meio dessa bagunça toda.

A segunda, que seria decepcionante, é a de que eu esteja desmaiada ou dormindo em algum ponto dessa história, em casa hoje cedo ou no escritório alguns minutos atrás. De qualquer modo, depois de assistir a todos esses eventos, presenciando essa sinfonia tão singular e bela, não quero voltar às minhas preocupações cotidianas, tais como “não há leite desnatado no supermercado”. Esses dragões – que, certo, não sei de onde saíram – têm nos olhos o brilho de crianças que acabaram de ganhar uma segunda bola de sorvete. Seria uma pena se eles fossem apenas uma alucinação contente.

E a terceira – como você talvez já esteja suspeitando – é a de que eu esteja no meu apartamento, ignorando uma frustração pulsante ao escrever essa carta ao meu melhor amigo, enfeitando uma realidade cinza e transformando mais um fato tipicamente capitalista numa metáfora divertida.

Você sabia, Smith, que a palavra “apocalipse”, na verdade, deveria ser traduzida como “revelação”, e não “fim do mundo”? Só que, pensando melhor, revelar grandes segredos não seria um bom começo para o fim? O apelo de uma verdade (ou uma mentira) bem escondida é chocante, Smith.

Talvez pela sua existência tão somente na minha imaginação – nada de ossos, carne e sentimentos erráticos – você não compreenda a magia do mistério.

Em sua não-humanidade, Smith, preciso alertar-lhe sobre um dos conceitos de  efetivamente ser humano: carregar o apocalipse, seja lá qual for a conotação aplicada.

Assim, não haveria graça alguma em dar a você um número, e poupar todas as divagações que eu sempre quis provocar. O apocalipse está dentro de cada um de nós, meu caro, nunca duvide do poder disso.

E obrigada por suportar-me. Seu caráter etéreo sempre vale a pena: deixa-me partida em pedaços melhores.

Com amor,

Lola.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Alvorecer


Reciclagem de uma redação para a escola. Um pouco supersticioso, simples e leve: gotas de água salgada, soa assim agora.

*

O homem tinha olhos tão cinzentos quanto a penumbra pela qual gostava de se locomover ao cair da noite, silencioso. Era um semeador de ventos.

Morava na maior fazenda de toda a região. E, ao crepúsculo, acendia seu cachimbo rústico e abria um sorriso manipulador. Com passos cuidadosos andava sem ser visto, para quebrar ferramentas, ceifar a vida de um animal, destruir plantações. Um trabalho sutil feito para parecer estrondoso, para ser encontrado pelo proprietário no dia seguinte.

Era um disseminador de sussurros. No dia seguinte lá estava, junto aos admiradores da pequena tragédia. Sempre presente pra semear a ideia, o suposto autor, a suposta ordem dos fatos, a suposta intenção. Plantar a maldade e criar vendavais, atordoando e confundindo.

Queimou armazéns, abriu cercas, quebrou tratores. Fundiu-se a sombra e brincou com o lado mais obscuro da desconfiança humana. Aprimorando-se conseguia destruir cada vez mais trabalhos.

Porém o revés chegou. Algumas famílias, quando pensavam só poder colher o ódio, desejaram pegar as sobras e aproveitar um fiapo de esperança. Tecer uma linha que unisse a todos, será que acordando um pouco mais cedo conseguimos nos resolver?

Alguns aprenderam até a cantar enquanto trabalhavam. E após os incidentes estranhos, antes celebrados por uns e lastimados por outros, agora tentavam se ajudar. Estender uma mão, sorrir quando chorar parecia a única alternativa.

E o semeador de intrigas ficou intrigado. Como semear a discórdia se agora só eram plantadas novas canções irritantes?

E no grande dia da colheita uma tempestade atingiu a fazenda do semeador de tristeza. Como num passe de mágica sumiram os pomares, sumiram os pastos, os equipamentos, o semeador de ventos. Onde estava? Como sumira com tudo do dia para a noite?

Sua terra ficou tão cinza como a cor dos seus olhos. Ninguém nunca mais atreveu-se a plantar por ali. E num raio de sol qualquer outro homem sorria, com olhos tão azuis quanto a calma de sua alma. Quando será que aqueles humanos teimosos aprenderiam que quem semeia ventos colhe tempestade? “Semeiem a solidariedade”, ele sorriu antes de sumir com a brisa, “e aprendam a colher o amor”.