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quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A concha e a finitude



Era um daqueles típicos dias abafados nos quais o ar parece feito de blocos de calor a serem atravessados, um a um. Mesmo a brisa marítima – suposta cúmplice do oceano – parecia ter sido esmagada por essa força invisível que deixa o mundo sufocado e preguiçoso.

Minha mãe estava na areia, descansando, e eu brincava no mar com meu irmão de sete anos. Enquanto sua ocupação se resumia a jogar água em meu rosto e sair correndo às gargalhadas, eu o observava sob o prisma de amor ao qual as irmãs mais velhas são submetidas: a beleza de seu bronzeado desleixado, as pernas compridas, o cabelo bagunçado, o som da risada sincera de quem contempla a felicidade em seu viés primordial. Ele era uma pequenina obra de arte de grande valor.

Após ser atacada diversas vezes, retribuindo de forma mecânica, resolvi surpreendê-lo ao jogar uma concha em seu peito. Seus lábios infantis formaram um “o” por alguns segundos, o mundo por um instante congelado perante sua expressão genuinamente estarrecida: quando a rotação do planeta se restabeleceu, as gargalhadas aumentaram ainda mais. Contudo, minha segunda tentativa desajeitada acertou seu rosto, e rapidamente a graça se desvaneceu.

- Você me acertou! – os olhinhos negros me encaravam, indignados.

- Foi sem querer...         

Não tive tempo de terminar. Logo ele se encaminhava para nossa genitora numa marcha resoluta, apenas interrompida brevemente num trecho em que as bolachas-do-mar infestavam o solo. Encarou-me, bravo, e precisei conter o riso ao erguer meu acusador no ar e carregá-lo por alguns metros para que concluísse sua denúncia. Passado o local crítico, balançou-se no ar, chegou ao chão e correu na direção de nossa mãe, as pegadas leves conduzindo-me ao julgamento atroz.

A mãe recebeu-o de braços abertos, ouvindo num jorro o relatório sobre a pequena tragédia. Mal sabia ele, tagarelando naquele tom agudo de crianças resmungonas, que o juiz do caso já havia se vendido, piscando um olho para mim.

- Foi um acidente, ela não fez de propósito, aposto que não...

- Eu nunca mais quero ir pra praia com ela! – disse ele, ofendidíssimo.

- Nunca mais é muito tempo, meu amor.

E eu sorri da petulância infantil, também um pouco ferida por meu próprio ato torto. Eu sabia que ele acreditava em suas palavras: naquele momento, sua raiva pueril afirmava com veemência a decisão. Promessa que seria facilmente quebrada na próxima semana, ou até no dia seguinte: isso me era perfeitamente claro. Mas não são assim as crianças, bradando do fundo dos seus pulmões verdades a serem desfeitas em alguns segundos?

Agora, finzinho de ano, a cena voltou para me assombrar com seu aspecto irônico: a ingenuidade foi minha. Não seriam os radicalismos e as promessas de fim de ano apenas um sintoma do quanto nós, seres humanos – independente de idade – não entendemos a fundo as noções de tempo e espaço?

Quantas vezes repetimos para nós mesmos a veracidade dos “para sempre” impossíveis? Quantas vezes, entre lágrimas, não respiramos fundo e acreditamos piamente em nossos “nunca mais”? Advérbios cheios de significado num momento específico, e que perdem sua intensidade conforme o tempo passa e as velhas desculpas se instalam em seus devidos lugares, justificando nossas falhas. Alguns erros são verdadeiros vícios: aproveitam-se das fissuras de nossas personalidades e por ela são atraídos, refugiando-se nas teorias complexas que inventamos para permitir que eles se repitam.

2014 foi um ano decisivo em minha vida porque decidi romper alguns ciclos intermináveis que me perseguiam, e essa foi de longe a mudança mais radical (e mais difícil) que executei.

É necessário livrar-se dos sentimentos inúteis, em primeiro lugar, porque só assim a franqueza tem a liberdade de repousar nos olhos sem o ímpeto de destruição. A arrogância e a autocomiseração são meros exemplos de uma infinidade de emoções que atuam no naufrágio cotidiano. Somos ensinados a lamentar nossos lapsos, a ajoelhar-nos para pedir-lhes perdão, esperando a salvação externa. A indústria da culpa move engrenagens que permitem a morte da autocrítica e uma boa noite de sono. É difícil despir-se dos pretextos usuais - não é fácil aceitar a carga de responsabilidade a nós delegada em cada gesto. Contudo, fazê-lo é permitir que sejamos protagonistas da nossa própria história. Permite um olhar demorado sobre o espelho – permite o crescimento sincero.

2014 foi também sobre testar limites. Foi sobre chegar à exaustão, e também sobre privar-me de comportamentos tóxicos que não me faziam bem de verdade – e daqui cito o açúcar em demasia e pessoas não-confiáveis. Perdi 12 kg e algumas “amizades” a partir dessa filosofia, e indubitavelmente o esforço foi válido.

Conforme aprendi a aceitar-me, o caos mental foi sendo amenizado, pouco a pouco. Depois de um verdadeiro apocalipse interno em busca de respostas, descobri a doçura das perguntas certas. Aprendi que o silêncio não muda mentes intolerantes, mas preserva minha sanidade. Aprendi que, às vezes, as pessoas que amamos optam por chafurdar na lama da infelicidade, e que por mais que queiramos oferecer auxílio, ele de nada vale quando a revolução não é pessoal (e essa foi a lição mais dolorida de todas).

Aprendi, acima de tudo, que promessas longínquas e pontos de partida genéricos de nada servem. Por isso, eu espero que você consiga lutar por um futuro melhor mês que vem, na próxima segunda-feira, daqui a dois dias, daqui a 20 horas. Espero que você não desista dos seus sonhos quando gente entediada vier enumerar motivos pelos quais você não pode alcançá-los. Que você tenha coragem de admitir seus erros, e mais coragem ainda para se perdoar. Que tenha calma para apreciar os pequenos momentos, que no fim das contas são aqueles que nos fazem sorrir e iluminam um dia qualquer. Que tenha sabedoria para não gastar energia com o que não vale a pena, e que tenha amor para lidar com toda a intolerância que nos cerca. Amor para não ser intolerante, também.

Meu 2015 será um ano pós-revolução, e não espero o melhor dele. Cansei de esperar: quero o melhor de mim. Para você, eventual leitor e silencioso amigo, meus sinceros desejos de força, coragem, calma, sabedoria e amor. Todos supracitados, todos de coração.



*



Caso alguém tenha ficado preocupado, meu irmão de sete anos me perdoou, e no próximo dia de sol provavelmente estaremos novamente na praia, nos divertindo. É de momentos assim que pretendo me cercar, se não para sempre - um termo vão e impreciso - pelo máximo de tempo que eu for capaz.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

A Síndrome do Castelo de Areia


Sábado à noite. Num restaurante qualquer, um grupo de amigos se entretém decidindo que pratos pedir, já que apenas o valor da comida será dividido entre todos. Uma das jovens à mesa comenta que, sendo vegetariana, ficaria de fora do pagamento coletivo para escolher algo que correspondesse ao seu estilo de vida. Não começa nenhum discurso sobre assassinatos, crueldade contra os animais, testes de laboratório: faz sua constatação com poucas palavras, pacificamente.

Contudo, o comentário inofensivo provoca indignação do outro lado da mesa. Um rapaz não hesita em discursar em tom de escárnio sobre como vegetarianos são arrogantes e como tal comportamento não faz sentido. Palavras agressivas e autoritárias jorram de sua boca e ninguém parece se importar, nem o próprio enunciador – para ele, a violência da opinião displicente passa despercebida. A moça, surpresa pelo ataque gratuito de um desconhecido, recolhe-se num silêncio que mistura constrangimento e raiva.

Quem me dera a cena tivesse sido inventada.

Não sou vegetariana, e essa não é a questão. O problema no qual me concentro ao presenciar momentos assim é a tendência facilmente observável – e por isso, infelizmente, banalizada - da intolerância, da necessidade de imposição das crenças individuais. Mero exemplo entre muitos, muitos outros.

Não existem assuntos não-discutíveis: existem pessoas que não sabem discutir. É saudável e necessário que ideologias – políticas, religiosas ou futebolísticas – sejam, sim, alvo de debate. É justamente do questionamento que evoluem as ideias, que se entende melhor o mundo. Vivemos, entretanto, na era da velocidade e do conformismo. Chamo a esse conjunto perturbador de Síndrome do Castelo de Areia.

Segundo essa teoria inventada impulsivamente numa tarde de terça-feira, há pessoas infelizes no mundo. Dentre essas pessoas, algumas – afogadas em sua mediocridade – não enxergam forma fácil de melhorar a própria vida. Normalmente a solução demanda mudança, que por sua vez exige energia e auto-crítica. É muito mais fácil, convenhamos, deixar-se arrastar pela inércia de uma rotina acinzentada.

Mas nem tudo é perfeito. Alguns seres humanos, inquietos, desenvolvem um raciocínio e um comportamento que vai contra a ordem pré-estabelecida. Não necessariamente o tipo de adversidade que interfere na vida de outrem, bastando a singularidade que de fato diz respeito ao seu praticante: pode ser da forma de se vestir à preferência sexual. Basta tal cenário para que entre em cena a síndrome: uma parte das pessoas do parágrafo anterior, deparando-se com o incomum, sente um desejo incontrolável de condenar tudo que não compreende.

Não é fácil construir uma visão pessoal embasada. Cada pergunta, resposta e dúvida demoram a solidificar-se; tempo, leitura, experiência e outros fatores, pouco a pouco, podem construir de fato uma estrutura tão complexa quanto um castelo de areia. E não é fácil, por sua vez, construir um castelo: a areia é traiçoeira, e cada escultor imprime em sua obra tantas peculiaridades quanto é capaz. Sua imponência é adquirida pouco a pouco, e o artista desenvolve naturalmente um amor por sua obra.

E então chega o intruso, juiz da vida alheia. Não é de sua natureza apreciar a beleza singular da escultura, e buscar em seus recantos o encanto de um universo novo. O único desejo que irrompe em seu peito é o da destruição: ele quer, de qualquer jeito, por o castelo abaixo. Olha discretamente para trás, lembra-se da pobre pilha de areia que o aguarda em seu retorno triste e vazio e não hesita em seu ímpeto de ódio.

Se o carrasco não é frustrado por sua falta de bagagem, então está tomado por uma egolatria que sussurra em sua mente que toda e qualquer pessoa tem obrigação de fazer uma cópia fiel de seu castelo, porque através de uma lógica louca chegou à conclusão de que sua visão é a única “correta”.

E lá vai o demolidor – criança mimada travestida de adulto sóbrio – seguir seu impulso cego, sem admitir que um monumento erigido com tanto trabalho não será desfeito por um desejo infantil. O único efeito de fato é a reação de quem assiste ao ataque – reação essa que, obviamente, nunca será positiva.

Não é que todo castelo seja revestido de um caráter sagrado e intocável: simplesmente subestima-se a importância de nossas verdades humanas. A vida é uma grande lacuna sem sentido, e não há quem sobreviva a ela sem preenchê-la com seus próprios pilares, sejam eles a filosofia ou a televisão. Sem nossas ilusões e convicções para sustentar-nos, desabaríamos perante a enormidade do Universo e a pequenez de nossa existência.

Muitas vezes nos deparamos com pessoas que escolhem bases tóxicas – um racista, por exemplo. Por mais que seu preconceito seja algo danoso, é inútil gritar com ele para que seja compreendida outra visão, já que dificilmente uma discussão acalorada o faz mudar de ideia. Entretanto, a conversa amigável e questionamentos deixados cuidadosamente pelo caminho podem surtir mais efeito: deixa-se o protagonismo de uma nova postura para o agente da intolerância. Para muitos ativistas, é difícil entender a lógica de um tratamento "suave" para o dito opressor; contudo, o radicalismo do discurso é ainda mais ineficiente. Numa situação de extrema agressividade, a resposta enfática e enérgica é realmente necessária; contudo, quando se passa para um cenário no qual a intervenção pode ser feita sem ânimos exaltados, a conduta pacífica é mais fértil. Por pacífica, aponto a ausência de violência - inteligência, ironia e lógica são o contraponto perfeito para qualquer fundamentalismo. É da natureza humana a defesa contra o questionamento, tido como “ataque”, e por isso mesmo é essencial a calma daqueles que querem intervir na postura do próximo positivamente.

Voltemos ao restaurante daquele sábado à noite. Debrucemo-nos sobre o rapaz que discorda do vegetarianismo. Brincando de Deus – poder concedido ao escritor em seu microcosmo particular – mudarei a abordagem da cena. Agora, ele muda de lugar na mesa – senta-se ao lado da moça – e indaga, neutro, sobre os hábitos dela.

É comum que os escultores em geral sintam medo de expor suas obras, temendo eventuais ataques. É usual que sonhos e ideais sejam encapsulados e escondidos para não serem atingidos pela obrigação velada de permanecer-se na área de segurança delimitada pelo cotidiano insosso.

Mas a moça não fará isso, porque pressente a sinceridade do interesse. Assim, ela faz algo na maioria das vezes impensável: permitir que ele vislumbre o castelo.

Ele, firme, aponta pontos instáveis na estrutura; ela, surpresa, defende as imperfeições. Lado a lado, atravessam a arquitetura e tecem toda sorte de comentário. Não é que ela mude de ideia; o tempo é finito, e o rapaz se vai. Contudo, a voz dele ainda ecoará pelos cômodos vazios, e ela nunca mais olhará para as linhas tortas sem questioná-las. Provavelmente num momento de distração – ônibus cheio, ciclovia vazia – ela vá refugiar-se em devaneios, e neles será capaz de estudar sua criação por ângulos antes esquecidos. E, sozinha – mas após uma intervenção externa – ela será capaz de melhorar seu castelo. Não por imposição, mas porque a compreensão de uma melhoria num dos sustentáculos de sua alma tem um apelo irresistível.

O termo “ganhar uma discussão” deveria reverberar em todos os ouvidos como o absurdo que é. Pode-se afirmar de forma desleixada que todo o conhecimento adquirido pelo homem está ao alcance de um botão; a informação mais acessível, entretanto, não costuma ser utilizada como enriquecimento e sim como vitrine de argumentos. Basta deitar os olhos sobre um resumo, absorvê-lo de forma rasa e assumir uma postura arrogante: o tom de voz mais alto é o vencedor. Vencedor de uma disputa que não tem outro objetivo senão a auto-afirmação, o autoritarismo e um inútil sentimento de superioridade, a vã vaidade daqueles que passam a vida sem interrogações, seguindo regras que mal compreendem e sentindo-se desconfortáveis quando têm a ordem rotineira quebrada. A democracia é defendida em tom autoritário, e assim se esquece que o âmago da liberdade é a aceitação: primeiramente de nós mesmos, e, depois, do próximo.

A intervenção pacífica é o melhor caminho, pois engatilha revoluções de dentro para fora. Talvez seja meu amor pelas utopias que me permita acreditar num futuro mais democrático, menos dogmático. Futuro no qual as pessoas possam ouvir umas às outras sem medo do quão loucas ou deslocadas possam parecer, e sem serem de fato julgadas incessantemente por outros que têm como único benefício disso a arrogância infrutífera.

Não lamento tanto pelos destruidores de castelo de areia – esses normalmente já se blindaram contra minhas palavras. Aliás, se há algo que o tempo me ensinou é que as pessoas possuem o curioso hábito de enxergarem apenas o que querem (e quando lhes interessa). Meu lamento é por todas as vozes que se calam por medo da repreensão. Sonhos foram engaiolados, e os próprios sonhadores acostumaram-se ao conforto da prisão que criaram.

Foi-se meu tempo de resignação e silêncio - acostumei-me a deixar para trás os mísseis, escavadeiras e bombas atômicas lançados pela inflexibilidade cega. Prefiro carregar comigo a vitória de cada semente de incerteza que, de forma delicada, deixei na cabeça daqueles que se dispuseram a ouvir-me. Levo, também, cada ensinamento com o qual fui presenteada ao conhecer opiniões divergentes. Do tirano ao submisso, do alienado ao fatalista, da senhora do ônibus ao palestrante de sorriso falso: cada um deixou comigo uma parte de si, e para isso foi necessário apenas contemplar a diversidade de interpretações possíveis sobre a imensidão da vida. Se mudar o mundo é um clichê barato, ainda assim é de um idealismo inofensivo pelo qual vale a pena lutar.

E, caso alguém discorde, pode sentir-se à vontade para dividir um pedaço de torta de cereja e explicar-me minha inconsistência. Meu castelo de areia é firme, mas sempre dá as boas-vindas a um visitante em missão de paz.

domingo, 12 de outubro de 2014

O fantasma sorri



Ah, minha querida, eu gostaria de não ter chorado tanto.


Não sei se é este pensamento que me desperta, ou se é apenas o primeiro a emergir do sono frágil: hoje é dia das crianças.

A constatação me desconcerta, atravessando-me como um raio, saindo de meu estômago e indo até a ponta dos dedos dos pés. Não é o fato em si que espanta, mas sua natureza banal. É ela quem, do pé da cama, encara-me com solenidade. Minha idade agarra-se a essa percepção, e logo meu caos particular está emaranhado junto aos cobertores velhos.

O dia doze de outubro era um dos mais aguardados do ano. Lembro-me do pacto sagrado que eu e meu irmão fazíamos: o primeiro a despertar chamava o outro, e lá íamos nós dois pular na cama de nossos pais. Os livros e brinquedos, com suas cores brilhantes, eram contrastados pelas negociações envolvendo etiquetas de preços monocromáticos. Era o dia da música de papéis se rasgando, chocolates mordidos e pedidos realizados. Um dia aguardado com ansiedade.

Desço da cama inquieta. O silêncio da casa não será quebrado por pés descalços correndo ou pelo café da manhã excepcionalmente antecipado. Agora, enquanto abro a janela, o sol opaco é de uma data qualquer, esquecida, não mais carregando qualquer tipo de emoção aguda.

Em que momento o encanto escapara? Teria ele sido arrancado pelo tempo, teria sido expulso pelo trágico ímpeto de crescer? Quando aquela ansiedade se fora, sem dizer adeus?

A inércia quase me conduz até a água gelada da pia; o espelho na parede, antes mero acessório inofensivo, me detém.

Ele sorri para mim – não um traço simpático, mas quase um esgar violento. Ele ri de mim, destacando impiedosamente o par de olheiras e as perguntas tolas.

Confesso, derrotada, que a ansiedade existe, sim; continua lá, parte de minha alma, estampada em meus olhos. Ansiedade, entretanto, que não será alegremente desfeita dali a duas caixas de presente.

Não me reconheço.

Sou a mesma de ontem, e de anteontem, mas a conexão entre meu passado e meu reflexo é tênue.

Os dedos longos, os olhos curiosos e o formato do cabelo são os mesmos; o esmalte vermelho, o lápis de olho borrado e a tinta, não.

A sobreposição é visível. A garotinha que fui – fantasma esguio – esforça-se para se esconder, mas sinto que ela está ali, em algum lugar. Soa até arrogante esquecer o mérito (e a culpa) que a menina teve sobre a (suposta) mulher.

Tento ser menos estrangeira nessa melancolia cronológica, menos cruel comigo mesma. Afinal, ainda sou uma sonhadora, sobrevivente da realidade esmagadora. Se estou sendo dissolvida de dentro para fora, é porque antes meus sonhos me ajudavam a dormir, e agora são eles que me mantém acordada noite adentro - rabiscando papéis que talvez ninguém leia, contando estrelas que ouso fingir que enxergo, tentando alcançar o futuro indistinto.

Não sei se a criança que fui teria orgulho do que sou hoje; resta-me o risco de acreditar que, enquanto esse enigma tiver importância, estarei no caminho certo.

Afasto-me, um pouco mais leve. A esperança pífia e insistente de um gesto quebrado: o fantasma sorri.

sábado, 20 de setembro de 2014

Nota de uma [suposta] virose


Às vezes é difícil entender as engrenagens que movimentam os microcosmos de cada um.

De quem se espera compreensão e cumplicidade, vem os ataques e as acusações ("mesquinhez e egoísmo", "insensibilidade e arrogância").

Do que se espera o mínimo de colaboração - e por que não o próprio corpo? - vem a derrota após horas e horas de estudo, estresse, apetite perturbado, sono prejudicado.

Faz quatro dias que não lembro o sabor da saúde regular, que não sei o que é o conforto de não sentir a dor física impregnando todos os meus sentidos. Mas há meses suporto minha deterioração, exigindo sempre mais, deixando-me conduzir por discursos de invencibilidade.

"Perdeu 11 quilos? É fácil, você tem 18 anos. Estuda onze horas por dia? Devia estudar mais, não tem casa pra sustentar. Trabalha duas vezes por semana? Tão pouco, nem devia cansar. Problemas pessoais? Todo mundo tem. Dorme mal? Eu também, problema seu."

Mas pior que a traição dos que amamos é a traição do próprio corpo, capaz de engaiolar-nos perante qualquer passo em falso.

Nada como analgésicos que não funcionam para lembrar que nem tudo é decepção, coração partido, alma escorraçada.

Às vezes é dor literal e não-literária. Órgãos, sintomas, carne, pele e entranhas. Simples assim.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Lógica de Réveillon

Começarei 2014 publicando o texto que escrevi no finzinho de 2013 (: Espero que leitores ocasionais perdoem o singelo atraso, e espero também escrever mais - e melhor - nesse ano que nasce.


Fiquei um bom tempo pensando se deveria escrever esse texto, porque mensagens de fim de ano costumam cair em clichês e eu, particularmente, não sou grande apreciadora deles. Contudo, as palavras mais insistentes não costumam calar-se mediante lógicas e bons argumentos: elas simplesmente saltitam ao redor do meu cérebro e clamam por liberdade. Aqui está, assim, um tanto de pensamentos tortos que resolvi compartilhar.

Não gosto muito do Natal. A atmosfera consumista, a cidade lotada, o trânsito impaciente e principalmente a falsa prosperidade que todos se sentem obrigados a exibir drenam minha empolgação. Não chego a ser o Scrooge de Dickens (você o conhece, é o velhinho sovina e amargo que é visitado pelos três espíritos), mas a data não tem, para mim, a magia da virada do ano.

Não sou supersticiosa, mas acredito no poder da renovação. Acho que a proposta de deixar coisas ruins para trás e acreditar num futuro melhor é cativante. Nos segundos de contagem regressiva que antecedem a virada, o ar se enche de expectativa e é como se houvesse uma conexão entre as pessoas: é loucura pensar que seres humanos tão problemáticos, errôneos, imperfeitos e dissonantes consigam essa abstrata harmonia de pensamentos. É algo único.

Mesmo assim, às vezes sinto que basta acabar a queima de fogos e, voilá, todos os sonhos afagados antes da meia-noite se esvaem, como se a magia realmente tivesse se esgotado e a realidade cobrasse os pés no chão e a monotonia rotineira. Só que não gosto de desejos vazios, não gosto de crenças despedaçadas. Sendo assim, fujo dos simples votos de saúde, paz e amor.

Mais que saúde, eu desejo a você toda a paciência necessária para frequentar os médicos necessários e, indo além, seguir suas recomendações da melhor forma possível.

Mais que paz, desejo a você a sabedoria necessária para resolver seus problemas da forma mais simples possível, e para descobrir o momento certo para ouvir e o momento certo para falar. O controle mental para engolir sapos e, mesmo assim, não se intoxicar com veneno alheio.

Mais que amor, desejo a você que consiga demonstrar seus sentimentos de forma serena e que se deixe ser amado sem os tantos obstáculos que, às vezes, criamos para nos defender.

E principalmente: mais que renovação, desejo a você a força necessária para largar os velhos hábitos prejudiciais, e para transformar os devaneios mais improváveis em projetos plausíveis. As correntes que nos amarram, geralmente, são mais vulneráveis do que pensamos. É difícil admitir erros e defeitos, é quase impossível modificar-se, mas a simples percepção de nossas fragilidades às vezes basta para que consigamos evoluir.

Se há alguém que pode melhorar sua vida, nunca deixe de acreditar que essa pessoa é você. Às vezes somos tentados a terceirizar a culpa quando a simples e dolorosa verdade é que os operadores de qualquer mudança somos nós mesmos.


E um feliz 2014 a todos!

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Façamos uma pausa.

Em verdade, faço uma pausa eu, enquanto na escola, sob a iluminação opressiva da luz branca e com o relógio a tiquetaquear numa lentidão sufocante.

O uso da 3ª pessoa do plural justifica-se pelo meu frágil otimismo, a vã esperança de ser entendida por um leitor ocasional.

E sua compreensão, caro transeunte, precisará aprovar - quem sabe apenas por cumplicidade - meu enfado, pesado fardo.

Suspiro ao ouvir palavras que já sei de cor, e a cadeira na qual repouso soa mais como prisão.

O tédio gera esta vontade louca de mover-me, de sentir algo além deste descontentamento, que se instala no estômago e parece rastejar até o cérebro, pedindo por distração, ação, coração - um verbo qualquer que se sobreponha ao vazio pulsante.

Talvez bastasse a saída. Sair de contexto, cenário e roteiro, pular da janela do terceiro andar e chegar ao chão ilesa (e de preferência tirar a poeira de meu vestido azul, à la Alice no País das Maravilhas, com toques de Tim Burton).

Imitar uma brisa de fim de tarde, inventar umas mentiras agradáveis, ouvir um segredo sussurrado. Esquentar pizza no microondas, podar flores, apostar e perder, vender meu casaco mais velho. Assassinar algum preceito indiscutível, discutir um preconceito indesejado, errar e começar de novo sem resmungar. Atravessar ruas sinuosas, tomar sorvete, soprar bolhas de sabão e assisti-las ascendendo ao céu, tendendo ao infinito (assim como a equação que o professor de matemática desvenda no quadro negro, sempre cínico, em sua segurança verde-escura).

Números. Sua frieza pontiaguda, a exatidão robótica de seus cálculos preocupa-me. Assim é a lógica que limita tantos olhos de vidro e convicções vazias, respostas prontas para questões profundas e humanas. A racionalidade é confundida com a arrogância, fundada em pontos de vista unilaterais e pobres em sua imobilidade. Mas humanos não são pétreos como os pilares da Ciência.

Creio no movimento, em meu subterfúgio de verdade de fato, de não apenas sobrevivência.

Quem me dera estar selando cartas, e enviando-as para amigos queridos e inimigos velados, e amantes imaginários... Vestir umas roupas mais confortáveis, fazer café, assar uma torta de cereja e conversar com um estranho. Subir uma escada em caracol com degraus de mogno, bater na porta e entrar na ponta dos pés, com um sorriso dual no rosto. "Por quê?", pergunto-me, deliciada. O que haveria em minhas mãos, uma chantagem diabólica, uma rosa azul, uma faca de dois gumes?

Ah, se a didática permitisse que a Física também mostrasse sua ambiguidade quântica! Defenestremos estes vetores indecisos, estas fórmulas inúteis decoradas com frases estúpidas. Tenho a aplicação mecânica de algarismos, e ninguém comenta sobre um gato que está vivo e morto, ao mesmo tempo, numa caixa austríaca.

Surpreenda-me, dissertação científica! Conte-me sobre a doce inconstância de fenômenos que enganam em sua vulgaridade cotidiana.

Sou feita de palavras; meu futuro as abraça sem hesitação. Já cálculos avançados, estes aborrecem-me profundamente. Enxergo-os como meros obstáculos a serem ultrapassados em prol do vestibular (mais um monstro devorador de almas).

Nadar numa piscina gelada, e entre mergulhos encontrar alívio para a ansiedade. Quebrar algumas regras, jogar baralho, partir uns corações, cantar músicas em idiomas que não domino. Aprender a desenhar e moldar algumas ideias fixas em traços melhor delineados. Chorar por algum motivo cabível, e gargalhar sem razão alguma. Queimar fotos antigas, salvar uma criança caindo de um prédio em chamas, planejar uma revolução política, perder um prazo, dormir até tarde, sem culpa ou medo. Corar de vergonha, assoviar alguma marcha antiga, comer bolo de chocolate com cobertura de chocolate (e recheio de chocolate). Abrir gaiolas aleatórias, e neste gesto libertar-me de minhas limitações.

Ah, se o cinismo existe, então está concentrad(íssim)o nesta Biologia desprovida de vida, com nomes esquivos e desenhos que não enchem os olhos de luz. A Biologia técnica e fria, que observa-me em minha carteira e ri-se de mim, deliciada, esperando que minhas pernas feitas para andar fiquem abandonadas, que meus olhos inquietos parem de procurar algum motivo de glória, que minha voz feita para expressar-me (desafinadamente) cale-se perante afirmações e informações que fatigam-me, acentuando minha aflição em busca de algo que não está aqui, não sob essa luz branca e opressiva, ou este relógio que tiquetaqueia tão lentamente, apenas para pontuar sem melodia a tortura minha de cada dia.

Fingir que o mundo está ao alcance de meus dedos. Sonhar, e acreditar que a realidade pode ser mais doce. Ler um bom livro, construir castelos de areia, bailar no caos. Antes deste conhecimento autoritário empurrado garganta abaixo, eu prefiro a vida. Antes desta organização depressiva e opressiva, eu escolho as palavras.

Escrever. De todos os verbos, o meu favorito. Pedi distração, ação, coração, mas tenho lápis e papel. Pedi esperança, leveza e liberdade, mas tenho lápis e papel. Se sou forasteira agrilhoada ou alma vivaz encarcerada, tenho lápis e papel. Sendo lápis e papel, traduzo-me num momento de agitação, e com um sorriso nos lábios, eternizo-me, divertida.

Não serei capturada tão facilmente.


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Deixo este texto em homenagem a todos que procuram uma forma de expansão, uma válvula de escape contra as imposições cotidianas. E sim, escrevi o texto durante as aulas mais terríveis para minha pobre mente, e agora meus colegas que tanto perguntavam que raios eu estava rabiscando terão uma resposta. Espero que gostem dela, de coração. Ainda escreverei uma crítica mais clara quanto ao sistema educacional, mas deixemos esta para uma próxima.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

Açúcar

Pequeno esclarecimento: gosto muito de Lola. Ela não sou, e tem olhos violeta.

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Querido Senhor Smith,

lembra-se do dia em que eu tanto pensava em amizade, amor e outros temas certamente aborrecedores? E que não conseguia conter a inquietação principalmente quando aquela palavrinha tão infeliz, “felicidade”, passeava pelos cantos de meus devaneios recorrentes?

Pois é. Acho que depois de tantas caretas e conclusões precipitadas, posso ter conseguido algo.

Sabe, foram muitas noites sem dormir direito e muitas voltas de bicicleta, todo aquele drama absolutamente necessário (inclua seu velho sorriso irônico aqui), para que eu conseguisse vislumbrar o vaga-lume de ideia.

O problema é que perdi muito tempo vagando pelos lugares errados. Procurando alegrias infinitas e soluções definitivas num mundo instável, e adoravelmente errático. Caçando as jujubas vermelhas do pacote, como se limão não estivesse à altura...

Enfim, lá estava eu, numa noite qualquer, conversando com um suposto amigo, um daqueles que atrai as palavras mais mirabolantes sem qualquer motivo aparente. Ele resmungava (como era de seu costume), e eu tentava remendar seus pedaços confusos e impacientes.

- Às vezes a felicidade não é tão simples.

- Isso mesmo – ele completou – acho que ela deve estar nos outros.

Nesse momento, com um estalido, me dei conta: ele estava absolutamente errado!

Quero dizer, podemos procurar esse contentamento em amigos, parentes e outras projeções de perfeição. Mas no fim, com toda a sinceridade, a tal felicidade está dentro de nós. Sempre esteve.

Ah, meu caro, minhas bochechas às vezes doem porque ultimamente tenho feito um esforço danado para sorrir e não trilhar o mau humor imediato. Ou pelo menos engolir todo o veneno possível, antes de começar a piorar meus problemas.

Estou começando a entender - de verdade - que não posso mudar tudo. Gostaria de arrancar mais sorrisos e encerrar mais conflitos antigos, mas isso é algo fora de alcance. Quem me dera arranjar mudanças profundas e rendições mágicas. Parar as brigas estúpidas e dizer o que (talvez, e só talvez) fizesse diferença.

Agora, quando os gritos começam a bloquear até o som da minha respiração, ponho os fones de ouvido, e ouço música o mais alto possível. Sorrio com as lembranças, assovio as partes que não sei e canto bem baixinho o que já decorei. Retiro-me da guerra que não me pertence.

Quando muito sozinha, pego a bicicleta e saio, só para sentir o vento do inverno bagunçar ainda mais meu cabelo. E para ver as borboletas – borboletas são tão dóceis e agradáveis. Um pequenino presente, nessa paisagem urbana e apressada.

É muito difícil ver alguns desabamentos a minha volta. Observar pessoas se arruinando, sempre presas aos mesmos vícios.

Mas é assim mesmo, não é? Todos. Sempre acham que são especiais por algum motivo. Bonitos ao seu modo, mais espertos do que se espera, corretos em sua moralidade torta...

Ilusões. No final todos humanos, errando e agarrando o egoísmo quando conveniente. A maldade pura e declarada, Senhor Smith, permanece mesmo nos filmes e nas novelas que assisto de vez em quando: crueldade estereotipada e rasa, sem passados e segredos, presa a motivos bobos e falas sem sabor.

Agora eu conto um segredo: não está sendo nada fácil essa minha revolução, Smith. Parece que quanto mais tempo passa, mais nítidos ficam os problemas, e mais me envolvo no emaranhado de desejos, sonhos e decepções. É muito feio, mas em alguns dias sinto certa arrogância. Noutros tenho vontade de quebrar o espelho pra não encarar mais meu reflexo, tão pobre, coitado.

Ando comendo mais do que deveria, já falaram com toda a (in)discrição possível que estou engordando. E também estou mais quieta, e a palavra pode ser difícil. É. Outro dia me chamaram de fraca. Não gostei muito do adjetivo, mas talvez seja isso. A desistência pacífica, bandeirinhas brancas e piano para acompanhar, uma marcha fúnebre e alguma canção capitalista cliché.

Pode ser raciocínio de gente enganada, mas nesse caso, se estou mesmo enganada não posso, sabe como é, ter conhecimento disso. Minha pseudo-verdade é: estou mais completa. Percebi que é muito melhor ganhar um “obrigado” de alguém mergulhado em amargura do que tentar (em vão) resolver  problema alheios, num exercício mental.

Não sou nem um pouco perfeita, isso é fácil de enxergar. Alguns não parecem estar gostando muito dessa minha relativa tranquilidade.

Mas eu consegui rir sozinha, tocando violão e comendo chocolate. Consegui dançar sem música, meu amigo. E gargalhei quando percebi que já estava saindo de casa sem as chaves.

Poderia ser mais divertido discutir isso se você existisse, cá entre nós. Meu pai provavelmente vai achar essa carta na gaveta, e rir de mim enquanto fuma seu cigarro com cheiro de hortelã, dizendo que estou enlouquecendo.

Não me importarei. Não preciso ouvi-lo, só dispersar esse cansaço da rotina.

Pode ser questão de comodidade e loucura, Senhor Smith. Não estou me importando muito.

Declarar-me feliz talvez seja um pouquinho de presunção, e um pouquinho de desprezo também por coisas que realmente preocupam. Certo, pode chamar de coisonas, se preferir assim.

Mas chega de complicar o complicado, certo? Certo.

Felicidade deve ser algo próximo disso, de apreciar o possível e conviver com o impossível. E lá venho eu de novo com minha filosofia barata. Muito delicado da sua parte não existir, e não contestar minhas linhas sinuosas e afetadas.

Obrigada por isso.

Com amor,
Lola.

P.s.: não sei por que, mas acho que esta carta ficou com gosto de açúcar...
P.s.²: talvez seja culpa do chá que eu estava bebendo. Deixemos essa discussão para um outro dia, sim, sim.

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terça-feira, 23 de julho de 2013

O Erro da Professora


Texto escrito para uma Olimpíada Nacional de Química, na qual o tema era "As Cores e a Química". Consegui uma colocação entre os dez melhores textos, sendo ele publicado no site da USP. Segue o link a título de curiosidade: http://allchemy.iq.usp.br/

*

Quando criança, sempre odiei desenhar. Meus traços erráticos não delineavam as ideias que passeavam por minha mente infantil, e isso me irritava. Já uma caixa de lápis de cor, isso sim era algo que eu adorava: misturar o verde de minhas árvores tortas e o azul de mares inventados. Ver as matizes que preenchem objetos inseridas numa grafite era mágico: permitia que meu sol fosse roxo, mesmo com os protestos da professora de que ele ficaria mais bonito em laranja ou amarelo.

Às vezes ela cismava de que não precisávamos colorir nada, dizendo que avaliaria só o que tínhamos representado. “As cores”, dizia ela, “não são tão importantes”. E naquela época, com meu respeito grande e infantil, nunca tive coragem de respondê-la, sendo sempre avaliada com notas medianas por meus rabiscos mal humorados. Hoje, porém, eu não ficaria calada diante de tal injustiça.

A fóvea dos olhos humanos possui cones – nossas células fotorreceptoras – que abrangem os mais variados tons, milhares e milhares deles. Sendo assim, por que não usar a criatividade ao invés de sempre colorir o céu com a mesma variação entediante de azul? As cores são tão importantes e presentes que acabam sendo esquecidas. Faz parte da triste e humana capacidade de acostumar-se com a beleza.

O próprio céu é colorido pelo fenômeno microscópico da dispersão de luz, que dependendo do horário faz as ondas de variados tamanhos – resultando em diferentes cores – bailarem e espalharem-se, formando obras de arte sobre nossas cabeças. E as estrelas, então? É seu tom que define a distância que as separa da Terra, e ainda sussurra aos cientistas os segredos da expansão do Universo. O arco-íris, formado logo após a chuva de fim de tarde, é luz branca que atravessa as pequeninas gotas d'água e é refratada, exibindo suas sete delicadas cores e fazendo com que todos os duendes corram para esconder seus potes de ouro.

A natureza, sempre sábia, conhece direitinho o potencial de pigmentos. O flavonol das flores amarelas atrai abelhas, enquanto a pelargonidina das vermelhas convida mariposas e borboletas. Os animais com homocromia têm a mesma tonalidade de seu ambiente natural, uma dádiva que lhes dá uma vantagem incrível na hora de caçar, ou não ser a caça. Já o sistema de herança genética quantitativa é o que define o tom de pele de cada pessoa, e que também foi capaz de definir a História.

Até hoje, pessoas que possuem os alelos dominantes da cor negra são alvo de preconceito mudo. E um homem, num sonho insano de conquistar o mundo, chegou a decidir que qualquer pessoa sem os alelos recessivos da pele alva e dos olhos claros deveria ser exterminada, por não integrar uma suposta “raça superior”. A variabilidade genética ainda pode produzir o racismo, ápice da estupidez humana. A mesma cor, sob diferentes contextos, carrega concepções dissonantes.

A cor vermelha da bandeira comunista, que proclamava a igualdade entre nações, foi usada também pela bandeira nazista, que planejava a aniquilação de povos inteiros. As tinturas naturais feitas pelos indígenas brasileiros, a base de urucum, açafrão e café são ainda hoje usadas em diversos rituais, sendo que cada tribo tem seus próprios códigos místicos para as tonalidades. Pinturas intrínsecas são feitas na pele, denotando objetivos e glórias. Não importando o direcionamento, é inegável a influência das cores sobre as mais diversas sociedades. E, com a globalização, cada vez mais unem-se e desconstroem-se referências e ideias.

Num primeiro momento, os cinemas apropriaram-se apenas do preto e do branco para encantar gerações, com o humor refinado de Charlie Chaplin e os passos graciosos de Fred Astaire. Hoje em dia, o poder das cores evoluiu tanto que permite enxergarmos pessoas que estão do outro lado do mundo, com uma definição que assombrosamente caminha para perto da realidade. Sim, porque as telas, por mais modernas que sejam, são apenas isso: matizes combinadas que formam imagens. A LCD trabalha com três fontes de cores primárias e uma luz branca para brincar com os tons, e a Plasma trabalha com um processo químico liberador de fótons, que colidem com o fósforo na frente de células que as faz brilhar, também a partir das três cores fundamentais. Portanto, as imagens que vemos cheias de detalhes são apenas pequenos pontinhos coreografados da maneira correta, numa dança que diariamente embala milhões de lugares pelo mundo.

Se as cores não influenciassem tanto nossa rotina, então as balas não seriam tão coloridas, e os chocolates não teriam embalagens tão chamativas. Um chiclete amarelo pode ter corante derivado do alcatrão de carvão (um ingrediente excêntrico, sejamos sinceros), e tudo para enlaçar o consumidor pelos olhos. E os tecidos, então? Desde a Antiguidade, as pessoas sempre fizeram questão de manchar suas roupas com as mais variadas tinturas, obtidas naturalmente de folhas de eucalipto ou mesmo cascas de nozes. Sempre houve a impressão de que as cores despertam sensações. Só que, com o desenvolvimento da ciência, conclusões concretas estão sendo fundamentadas.

Alex Born, um dos maiores nomes do mundo em neuromarketing, está relacionando numa de suas mais recentes pesquisas áreas do cérebro estimuladas por cada cor. O cinza estimula o putâmen, área responsável pela distribuição de dopamina, criando uma certa associação de neutralidade; já o roxo, ligado ao polo frontal, remete a sensatez ou mistério.

Antes de ressonâncias magnéticas existirem, muitas já eram as crenças e superstições. Ingleses usavam lenços vermelhos no pescoço para espantar espíritos que causavam resfriados, e na Irlanda o verde é considerado coloração azarada: tem ligação com as fadas, e por isso pode trazer má sorte. Mesmo o homem do século XXI não hesita em, no Ano Novo, vestir suas roupas brancas e desejar um pouco de paz. E assistir, com olhos encantados, a explosão dos fogos de artifício, que com sais de cálcio cria uma procissão de faíscas laranjas, mas que se tiver sais de estrôncio misturados aos sais de cobre cria um tom de violeta, capaz de tirar o fôlego.

Existem pessoas que chegam a sentir o gosto das cores e de notas musicais, por culpa de um distúrbio chamado de sinestesia. Outras, com daltonismo monocromático, só enxergam o mundo em preto e branco. E pessoas cegas, quando perguntam sobre a aparência de certa cor, costumam receber respostas cheias de textura, sons e sentimentos.

Aristóteles, Leonardo da Vinci, Isaac Newton e Goethe foram apenas alguns dos homens que dedicaram muito tempo de sua vida elaborando teorias sobre matizes e tons. E uma professora, numa distorção absurda de perspectiva, ousou desprezar a pequena garota em mim, com sua caixa preferida de lápis de cor e suas grafites que não eram grafites, mas uma mistura de barro, goma, cera e pigmentos coloridos.

Acho que todos deveriam ser obrigados a carregar canetas coloridas nos bolsos. E, frente a qualquer realidade incolor e insípida, preencher livremente vazios e desilusões com as cores que mais lhe agradassem. O que seria de nós, afinal, sem o laranja da chama aconchegante? Ou sem o branco das nuvens macias? Sem a esperança verde, a harmonia lilás ou o primeiro amor cor-de-rosa?

Cada criança do mundo deveria ter o direito de pintar seu próprio sol de roxo. Não por rebeldia, e muito menos por má vontade. Mas para expressar, com pureza e liberdade, o direito humano de sonhar. 

E colorir seus sonhos.

Feitos de Carne


Inspirado na citação de Freud: “Somos feitos de carne, mas precisamos viver como se fôssemos de ferro”.

*

Quando crianças, aprendemos que precisamos ser educados e sorrir sempre, mesmo quando a educação não é recíproca ou não há nada engraçado sendo dito. Não podemos sujar a roupa nova no quintal, nem fazer muito barulho, e entender que mamãe brinca mais tarde, papai conta uma história depois; há coisas mais importantes a serem feitas primeiro. A sobremesa é só depois de comer todos os legumes – inclusive a cenoura! -, e chorar nunca vai adiantar nada. Acompanhamos oscilações de humor e caprichos que não somos capazes de entender, porque somos “tão jovens”. Somos apenas argila, manuseada de acordo com o dia de sol ou a manhã de chuva.

Ficamos mais velhos, e temos a obrigação de crescer, matando a criança que insiste em emergir e não ser perfeitamente agradável. E então é necessário ajudar em casa, aceitar a vida e não ter contestações ouvidas: olha o seu tamanho! Deixar o tio hipertenso fartar-se de gorduras porque não é da nossa conta, acenar afirmativamente com a cabeça porque dá menos trabalho, engolir opiniões de quem tem uma casa maior ou um carro mais bonito. Crescer é ser sério, duro, não ter coração ou cérebro, mas uma boca que aprenda a se calar nas horas convenientes. Precisamos funcionar como elástico, aguentando exigências e críticas, falta de liberdade e incompreensão. Esticar, esticar, esticar; não estourar.

Quando adultos, então, mal podemos ficar doentes. Se reclamamos, precisamos nos conformar; quando conformados, precisamos encontrar nossa ambição. Podemos ter carreiras promissoras e conquistas complexas, mas caso não carreguemos um sorriso no rosto o tempo todo, nosso sucesso é fracassado: a felicidade é obrigatória. E nada de atrasos! Tempo é finito, tempo é dinheiro, respirar gasta tempo; permanecemos acordando sem fôlego. Não podemos pedir ajuda, precisamos ter certeza de tudo, mesmo do desconhecido, mesmo daquilo para o qual não fomos preparados, e enfrentar indiferentemente nossos piores medos. Muito tarde para perseguir um sonho, muito cedo para desistir da rotina insossa. Temos que ser ferro, resistente e inflexível.

E então ficamos velhos. Somos abandonados em pontos de ônibus por não pagarmos a passagem, e renunciados por filhos ocupados demais: tornamo-nos apenas inúteis. Nossa opinião não é mais válida, por ser muito antiquada; só temos autoridade sobre o passado, e mesmo este é constantemente arrancado de nós. Os degraus ficam muito grandes, e a paciência das pessoas ao redor fica muito pequena: essas grandezas inversamente proporcionais começam a nos pregar peças. Choramos a morte de pessoa que amamos, mas choramos baixinho para não incomodar ninguém. As dores, então, precisam ser escondidas, junto com o temor de sermos os próximos, e acabarmos amanhã em pó. Temos que ser o papel rasgado e sem objetivo, apenas empurrado pelo vento e pisado por estranhos altivos.

E passamos a vida assim, como robôs resignados, com nossos parafusos de sanidade e reações já programadas. Esquecemo-nos das expectativas, das liberdades e dos sonhos. Aceitamos as regras impostas e os programas de televisão, e ignoramos sentidos e objetivos; somos apenas telespectadores mudos e apáticos. Vivemos automaticamente, pretendendo o aço, quando temos um coração sinuoso e uma mente intrínseca.

Trajamos máscaras e ignoramos impulsos, seguindo uma sociedade da qual nos excluímos, mesmo integrando-a em seu sentido mais literal. As palavras vazias preenchem todos os cantos. Não importa o quanto ignoramos nossa natureza; ela clama por espaço, e clama por voz. Porque podemos vestir todas as ideias politicamente corretas, todas as posturas civilizadas e todos os conhecimentos que nos afastam da espontaneidade, mas continuamos sendo humanos.

Somos humanos. Não argila, ou elástico, ferro ou papel. Somos carne e sangue: em suas implicações mais enigmáticas, belas e primitivas.

(Re)Começo

Foto retirada da página do Facebook "Viver em Santos", minha cidade

Sou péssima em titular coisas. Ao gastar horas a fio pensando num nome para esse meu espaço, só conquistei uma dor de cabeça e uma lista considerável de palavras a serem usadas. Após Olhos de Abismo, Doce Inconstância e Sonhos de Areia terem sido descartados, perguntei descompromissadamente ao meu irmão de 5 anos que nome eu deveria dar ao meu blog. Após 15 segundos da mais profunda reflexão infantil, ele arregalou seus olhos negros, e disse com ar inocente: "Mares de Marina!". Misturei minha humilhação intelectual ao orgulho de irmã mais velha, beijei sua bochecha redonda e saí saltitando, não sem antes ouvir a pergunta direcionada a minha mãe do que seria um blog, afinal de contas, e por que ela está feliz assim.

Isto soa como um começo, mas deve ser considerado um recomeço. O momento atual encerra o No Rose Without A Thorn, meu antigo espaço virtual. Com ele, conquistei diversos prêmios e publiquei mais que textos - amadureci. As palavras a princípio desajeitadas, as frases cheias de gírias e os planos ingênuos ganharam forma e gosto. Percebi, amargurada, que o blog como um todo era mera transição, e eu não tinha mais prazer em exibi-lo, carregá-lo livremente. Decidi num impulso afogar algumas lembranças (in)significantes e partir para um novo lugar.

Cansei-me de promessas e julgamentos vazios. Eu poderia depositar aqui todas as expectativas flutuantes que tenho quanto a este projeto, contudo acredito que a possível frustração futura não valeria esta ação. Assim, apenas arrisco-me a dizer que a primeira fase do Mares de Marina será uma reciclagem do que eu era para o que acredito ser. Textos que me tocarem serão reformulados aqui, e caso alguém demonstre profundo interesse por meu passado nebuloso, posso considerar uma reativação do NRWAT, como souvenir. Depois deste suposto acontecimento, continuarei minha árdua jornada de pseudo-escritora-de-dezessete-anos-cheia-de-coisas-para-fazer-e-além-de-tudo-em-ano-de-vestibular.

Essa é a ideia geral, e qualquer comentário construtivo será bem-vindo em minha caminhada.

Não tenho ilusões quanto ao andamento do barco. Talvez amanhã eu considere meus textos mal estruturados e tortos, e se for o caso, desviarei-me novamente da rota esperada. Essa é a graça de viver um dia de cada vez, ou planejando tão longe que a influência de um pensamento atravessado possa mudar bruscamente o futuro idealizado.

Sou perfeccionista, e não publicando algumas postagens logo, enlouquecerei entre rascunhos que almejam melhoras tão infinitas quanto infinitesimais. Sei que nem tudo aqui terá qualidade, e talvez seja mera pretensão minha essa mania de passar o tempo todo rabiscando qualquer pedacinho de papel com palavras vãs. Basearei-me em Stephen King, porém: "Se você quer ser um escritor, deve fazer duas coisas acima de todas as outras: ler muito e escrever muito".

Atualmente, minha dúvida universitária baila entre os cursos de Direito, Letras, Sociologia e Filosofia, tendo maior chance o primeiro. Contudo, desde minha infância nunca tive dúvidas quanto ao meu amor pela leitura, e agora arrisco minha dignidade ao dizer que, mesmo conhecendo inúmeros autores superiores a mim, o sonho é maior que o bom senso. Prometo contentar-me com a redação de embalagens de sabão em pó, se for o caso, mas a grande questão é que, ignorando o valor de meus escritos, quero libertá-los dos tantos cadernos e documentos virtuais que os aprisionam.

Posso me afogar nesta frágil tentativa de esperança - sou uma pessimista nata - mas antes disso tentarei prosseguir com meu sonho de menina, que sempre encontrou nos livros o conforto, e nas palavras a liberdade. O tempo será um inimigo menor que meu prazer ao apertar o botão laranja de "publicar", ao dar-me conta de que minha voz pode (sim!) ser mais importante que algumas imposições rotineiras como dormir e estudar assuntos que serão úteis apenas para uma prova absurda e definitiva, ao cabo deste ano.

Obviamente, espero agradar um eventual e desatento leitor que pare por aqui. Acima de tudo, entretanto, minha luta será contra o espelho, numa busca por melhor vocabulário, ideias aprazíveis e sorrisos momentâneos. Talvez eu fale sozinha, e por este mesmo motivo gostaria de uns assuntos agradáveis, umas histórias engraçadinhas e um punhado de melancolia, pois seria terrível entediar-me comigo mesma.

Assim, acabo otimista esta primeira postagem. Eu poderia escrever mais inúmeros parágrafos sobre quem sou - ou acredito ser, corrige-me Rousseau - mas para conhecer-me, os textos bastarão. Nessa minha trajetória humana, e por isso naturalmente egocêntrica, trarei mais de mim nas entrelinhas do que seria saudável. Escrever é isso, traduzir-se sorrateiramente, entregar-se mesmo quando em fingimento. Um vício, permita-me a ousadia.

Encerro por aqui. Bem-vindo aos meus mares, e que nos acompanhe a boa sorte.