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sábado, 20 de setembro de 2014

Nota de uma [suposta] virose


Às vezes é difícil entender as engrenagens que movimentam os microcosmos de cada um.

De quem se espera compreensão e cumplicidade, vem os ataques e as acusações ("mesquinhez e egoísmo", "insensibilidade e arrogância").

Do que se espera o mínimo de colaboração - e por que não o próprio corpo? - vem a derrota após horas e horas de estudo, estresse, apetite perturbado, sono prejudicado.

Faz quatro dias que não lembro o sabor da saúde regular, que não sei o que é o conforto de não sentir a dor física impregnando todos os meus sentidos. Mas há meses suporto minha deterioração, exigindo sempre mais, deixando-me conduzir por discursos de invencibilidade.

"Perdeu 11 quilos? É fácil, você tem 18 anos. Estuda onze horas por dia? Devia estudar mais, não tem casa pra sustentar. Trabalha duas vezes por semana? Tão pouco, nem devia cansar. Problemas pessoais? Todo mundo tem. Dorme mal? Eu também, problema seu."

Mas pior que a traição dos que amamos é a traição do próprio corpo, capaz de engaiolar-nos perante qualquer passo em falso.

Nada como analgésicos que não funcionam para lembrar que nem tudo é decepção, coração partido, alma escorraçada.

Às vezes é dor literal e não-literária. Órgãos, sintomas, carne, pele e entranhas. Simples assim.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Feitos de Carne


Inspirado na citação de Freud: “Somos feitos de carne, mas precisamos viver como se fôssemos de ferro”.

*

Quando crianças, aprendemos que precisamos ser educados e sorrir sempre, mesmo quando a educação não é recíproca ou não há nada engraçado sendo dito. Não podemos sujar a roupa nova no quintal, nem fazer muito barulho, e entender que mamãe brinca mais tarde, papai conta uma história depois; há coisas mais importantes a serem feitas primeiro. A sobremesa é só depois de comer todos os legumes – inclusive a cenoura! -, e chorar nunca vai adiantar nada. Acompanhamos oscilações de humor e caprichos que não somos capazes de entender, porque somos “tão jovens”. Somos apenas argila, manuseada de acordo com o dia de sol ou a manhã de chuva.

Ficamos mais velhos, e temos a obrigação de crescer, matando a criança que insiste em emergir e não ser perfeitamente agradável. E então é necessário ajudar em casa, aceitar a vida e não ter contestações ouvidas: olha o seu tamanho! Deixar o tio hipertenso fartar-se de gorduras porque não é da nossa conta, acenar afirmativamente com a cabeça porque dá menos trabalho, engolir opiniões de quem tem uma casa maior ou um carro mais bonito. Crescer é ser sério, duro, não ter coração ou cérebro, mas uma boca que aprenda a se calar nas horas convenientes. Precisamos funcionar como elástico, aguentando exigências e críticas, falta de liberdade e incompreensão. Esticar, esticar, esticar; não estourar.

Quando adultos, então, mal podemos ficar doentes. Se reclamamos, precisamos nos conformar; quando conformados, precisamos encontrar nossa ambição. Podemos ter carreiras promissoras e conquistas complexas, mas caso não carreguemos um sorriso no rosto o tempo todo, nosso sucesso é fracassado: a felicidade é obrigatória. E nada de atrasos! Tempo é finito, tempo é dinheiro, respirar gasta tempo; permanecemos acordando sem fôlego. Não podemos pedir ajuda, precisamos ter certeza de tudo, mesmo do desconhecido, mesmo daquilo para o qual não fomos preparados, e enfrentar indiferentemente nossos piores medos. Muito tarde para perseguir um sonho, muito cedo para desistir da rotina insossa. Temos que ser ferro, resistente e inflexível.

E então ficamos velhos. Somos abandonados em pontos de ônibus por não pagarmos a passagem, e renunciados por filhos ocupados demais: tornamo-nos apenas inúteis. Nossa opinião não é mais válida, por ser muito antiquada; só temos autoridade sobre o passado, e mesmo este é constantemente arrancado de nós. Os degraus ficam muito grandes, e a paciência das pessoas ao redor fica muito pequena: essas grandezas inversamente proporcionais começam a nos pregar peças. Choramos a morte de pessoa que amamos, mas choramos baixinho para não incomodar ninguém. As dores, então, precisam ser escondidas, junto com o temor de sermos os próximos, e acabarmos amanhã em pó. Temos que ser o papel rasgado e sem objetivo, apenas empurrado pelo vento e pisado por estranhos altivos.

E passamos a vida assim, como robôs resignados, com nossos parafusos de sanidade e reações já programadas. Esquecemo-nos das expectativas, das liberdades e dos sonhos. Aceitamos as regras impostas e os programas de televisão, e ignoramos sentidos e objetivos; somos apenas telespectadores mudos e apáticos. Vivemos automaticamente, pretendendo o aço, quando temos um coração sinuoso e uma mente intrínseca.

Trajamos máscaras e ignoramos impulsos, seguindo uma sociedade da qual nos excluímos, mesmo integrando-a em seu sentido mais literal. As palavras vazias preenchem todos os cantos. Não importa o quanto ignoramos nossa natureza; ela clama por espaço, e clama por voz. Porque podemos vestir todas as ideias politicamente corretas, todas as posturas civilizadas e todos os conhecimentos que nos afastam da espontaneidade, mas continuamos sendo humanos.

Somos humanos. Não argila, ou elástico, ferro ou papel. Somos carne e sangue: em suas implicações mais enigmáticas, belas e primitivas.